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sexta-feira, 19 de maio de 2017

AFINAL, QUEM É REFORMADO? VALMIR NASCIMENTO É MINISTRO DO EVANGELHO, JURISTA, TEÓLOGO E MESTRANDO EM TEOLOGIA. POSSUI PÓS-GRADUAÇÃO EM DIREITO E ANTROPOLOGIA DA RELIGIÃO. PROFESSOR UNIVERSITÁRIO DE DIREITO RELIGIOSO, ÉTICA E TEOLOGIA. EDITOR DA REVISTA ACADÊMICA ENFOQUE TEOLÓGICO (FEICS). MEMBRO E DIRETOR DE ASSUNTOS ACADÊMICOS DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE JURISTAS EVANGÉLICOS (ANAJURE). ANALISTA JURÍDICO DA JUSTIÇA ELEITORAL. ESCRITOR E PALESTRANTE. COMENTARISTA DE LIÇÕES BÍBLICAS DE JOVENS DA CPAD (JESUS E O SEU TEMPO). EVANGELISTA DA ASSEMBLEIA DE DEUS EM CUIABÁ/MT

Nesta data em que se comemora os 498 anos da Reforma Protestante, muitos perguntam: Quem, de fato, dentro do movimento evangelical, pode ser considerado um reformado? Essa é uma indagação bem interessante para os nossos dias, notadamente para ajudar a desfazer a tentativa de monopolização do movimento reformacionista por algumas alas do cristianismo evangélico contemporâneo. De modo geral, a Reforma Protestante representa o movimento teológico no século XVI que buscou o retorno da igreja cristã ocidental a fundamentos mais bíblicos, com implicações eclesiásticas, morais, políticas e econômicas. Em seu cerne estava o protesto contra a corrupção religiosa e a venda de indulgências pela igreja, e a defesa de que cada cristão pudesse, por si só, estudar as Escrituras. A síntese dos postulados da Reforma Protestante está contida nos chamados 5 (cinco) solas: Soli Deo Gloria (Glória somente a Deus); Sola Fide (Somente a Fé); Sola Gratia (Somente a Graça); Sola Christus (Somente Cristo); Sola Scriptura (Somente as Escrituras). Não obstante, a “Reforma europeia deve ser considerada o resultado de uma série complexa e diversificada de micro-Reformas, “cada uma delas com base em visões essencialmente locais de fontes e métodos teológicos, cujas interações subsequentes viriam a definir a forma da macro-Reforma como um todo”[1]. Afinal, “os fatores sociais não são, de modo algum, insignificantes na recepção das ideias, quer religiosas, políticas ou científicas”[2], muito ao contrário disso, é a partir desses fatos e suas inter-relações e conexões que compreendemos a realidade da história e todos os seus influxos, visto que ninguém age em um vácuo existencial, antes é impulsionado por fatores internos e externos que moldam um determinado período. Portanto, o movimento reformista era complexo e heterogêneo, tratando de várias questões do seu tempo. Segundo Alister McGrath o termo “Reforma” é usado em vários sentidos, podendo se distinguir pelos menos quatro movimentos com características distintas: Reforma luterana (Martinho Lutero); Reforma calvinista (João Calvino); Reforma radical (anabatismo) e a Reforma católica (contra-reforma). De modo mais restrito, a expressão Reforma Protestante alude aos três primeiros movimentos. A partir dessa premissa, McGrath lembra que o termo “calvinismo”, embora frequentemente usado em referência às ideias religiosas da igreja reformada, e muitas vezes referido pela literatura, atualmente é desaconselhado. “A cada dia tem se tornado mais evidente o fato de que a teologia reformada, ao final do século XVI, inspirou-se em fontes outras que não as ideias do próprio João Calvino”.[3] Nesse mesmo sentido, Roger Olson também recorda que o termo Reformado é controverso. Restritivamente, refere-se às pessoas e movimentos que juram fidelidade aos três “símbolos de unidade”- o Catecismo de Heidelberg, a Confissão Belga e os Cânones do Sínodo de Dort. No entanto, segundo Olson, essa definição excluiria os muitos presbiterianos em todo o mundo que também acreditam que são reformados; assim como os congregacionais, batistas e muitas outras igrejas e organizações que reivindicam o termo e que, geralmente, são consideradas reformadas em sua teologia[4]. A partir dessa perspectiva, é importante corrigir a ideia segundo a qual reformados são somente aqueles que se identificam com os cinco pontos calvinistas [Tulip: Depravação Total (Total Depravity); Eleição Incondicional (Unconditional Election); Expiação Limitada (Limited Atonement); Graça Irresistível (Irresistible Grace); Perseverança dos Santos (Perseverance of the Saints)]. Essa perspectiva, além de não fazer jus à história da Reforma Protestante, desconsidera um dos princípios básicos que lhe era inerente: a contrariedade ao monopólio da interpretação das Escrituras. Talvez, seja mais consentâneo com a história a afirmação de que os cristãos alinhados à Reforma sejam aqueles cuja teologia defendem a glória de Deus, a salvação pela fé por meio da graça, somente através de Cristo, cuja revelação divina se obtém mediante as Escrituras Sagradas. Isso inclui, obviamente, os pentecostais clássicos e aqueles que defendem a doutrina da salvação dentro de uma perspectiva arminiana. Pensar de forma contrária é querer retornar ao elitismo teológico-religioso do período que antecedeu a Reforma Protestante. por Valmir Nascimento Referências: [1]MCGRATH, Alister.Origens intelectuais da reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 7. [2] MCGRATH, Alister.Origens intelectuais da reforma. São Paulo: Cultura Cristã, 2007, p. 8. [3] MCGRATH, Alister. Teologia sistemática, histórica e filosófica. São Paulo: Shedd, 2005, p. 99. [4] OLSON, Roger. Teologia arminiana: mitos e realidade. São Paulo: Reflexão, 2013, p. 56.