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sábado, 3 de junho de 2017

COMO EXÉRCITO DE VOLUNTÁRIOS SE ORGANIZA NAS REDES PARA BOMBAR CAMPANHA DE BOLSONARO A 2018

O celular de Thiago Turetti, de 33 anos, não para de apitar. Enquanto desliza os dedos pela tela, diz que já perdeu a conta de quantos grupos de WhatsApp participa. O conteúdo das mensagens, no entanto, é um só: Jair Bolsonaro. O deputado carioca do PSC (Partido Social Cristão) transformou-se em um dos políticos com maior influências nas redes sociais, chegando a 4,2 milhões de seguidores no Facebook - mais do que o ex-presidente Lula (2,9 milhões) e do que o atual mandatário Michel Temer (580 mil). Neste ano, a popularidade começou a traduzir-se em intenção de voto. Mas Bolsonaro não está sozinho na empreitada digital. O parlamentar conta com um exército de voluntários que, além de compartilhar suas postagens, criaram comunidades online para divulgar seu nome pela internet. Com o objetivo final de alçá-lo à Presidência do país, esses simpatizantes deixaram de lado as ações individuais e formaram uma rede ainda difusa, mas com representantes em vários lugares do Brasil, para reforçar a campanha. Impulsionados pela crise política, e com auxílio do próprio Bolsonaro, discutem as melhores estratégias para atrair público e orientam simpatizantes do congressista a agir para bombá-lo nas mídias sociais. Turetti, que recebeu a BBC Brasil em sua casa, na grande São Paulo, diz que é um dos fundadores desse movimento. Apresenta-se como coordenador de importação e, nas horas vagas, administrador da página "Jair Bolsonaro Presidente 2018", que tem mais de 400 mil curtidas no Facebook. Ex-seguidor do filósofo comunista Karl Marx, hoje se identifica mais com bandeiras do deputado, como a castração química para estupradores. "Marx pregava união e igualdade e fui percebendo que era utopia. Quando você conhece a natureza humana, vai ficando cruel." Turetti e outros administradores na internet acreditam que seu trabalho ajuda a explicar a ascensão de Bolsonaro nas pesquisas. Todos dizem não receber nada pelo esforço. "Modéstia à parte, se não fossem as redes, hoje ele seria um Enéas (Carneiro, ex-deputado morto em 2007) da vida", compara Thiago Novais, de 34 anos, criador da página 'Eu Era Direita e Não Sabia', que tem 364 mil curtidas no Facebook. Em sondagem publicada em abril pelo Datafolha, o parlamentar ficou em segundo lugar na disputa de 2018 - em cenário que inclui Lula, Marina Silva e Aécio Neves -, com 15% das intenções de votos no primeiro turno. Em 2015, eram 4%. Jair Bolsonaro, que anunciou sua pré-candidatura no ano passado, não quis conceder entrevista à BBC Brasil. A estratégia online não tem data exata de criação, já que o ativismo foi se fortalecendo nos últimos anos. A maioria dos entrevistados pela BBC Brasil diz que ouviu falar de Bolsonaro pela primeira vez entre 2013 e 2014 pela internet. Desde então, passaram de só divulgar informações sobre o deputado a falar de eleições. O militar reformado está em seu sexto mandato na Câmara. Em 2014, foi o deputado mais votado do Estado do Rio de Janeiro, com mais de 460 mil votos. De lá para cá, suas declarações controversas sobre comunismo e a esquerda ganharam cada vez mais repercussão. "O brasileiro é carente por líderes, né, e ele assumiu esse vácuo, como uma figura transparente, que fala o que pensa. A ideia de elegê-lo veio porque ele não tem histórico de corrupção", afirma Turetti. Dom Werneck, que se identifica apenas como militante, é conhecido por recepcionar Bolsonaro toda semana no aeroporto de Brasília, cidade onde mora. Werneck afirma que foi "o precursor" dessa rede, em 2013, quando conheceu as opiniões do parlamentar. No ano seguinte, o encontrou pessoalmente. "Bolsonaro é um dos poucos políticos que têm uma militância voluntária. Me aproximei dele por causa disso e falei 'vamos fortalecer a militância para o senhor vir aí em 2018'. Aí começamos a trabalhar", diz. "Eu fazia uma lista (de apoiadores) e pedia a ele que mandasse um recado para cada um. As pessoas gostavam e desenvolviam grupos em suas cidades." Werneck fundou o que chama de "movimento bolsonarianista", que tem mais de 80 grupos de WhatsApp com integrantes do Brasil todo. No esquema digital, os chamarizes são as páginas no Facebook. A maioria cita o deputado no título e tem centenas de milhares de seguidores, como "Bolsonaro Opressor 2.0", com 735 mil curtidas e "Bolsonaro Presidente", com 493 mil curtidas. As publicações, cujo alcance é de milhões de usuários, são um misto de fotos do parlamentar e críticas a representantes dos três Poderes. O objetivo principal é "mostrar quem Bolsonaro é de verdade", diz o administrador Thiago Novais, da "Eu Era Direita e Não Sabia". Outra meta é suavizar seu discurso. Embora elogiem a atuação do deputado, alguns reconhecem que o estilo radical pode prejudicá-lo na corrida presidencial. "É claro, ele deve ter um probleminha, porque é militar, é truculento. Mas a gente tenta moldar na nossa página um Bolsonaro maduro na questão política, falando sobre como vai mudar a educação, por exemplo", diz Thiago Turetti. Para chegar a esse fim, são vários os vídeos do pré-candidato visitando colégios militares. Uma de suas bandeiras é a militarização das escolas públicas. Espalhar o nome de Bolsonaro Apresentar as propostas do deputado não é suficiente. Para os entrevistados, é preciso que elas sejam levadas a milhões de brasileiros. É aí que entram os grupos do WhatsApp, nos quais os apoiadores avisam e são avisados sobre aparições de Bolsonaro na imprensa, polêmicas envolvendo seu nome e enquetes presidenciais. O convite para entrar acontece pelo Facebook. A intenção é que essas pessoas acessem links sobre o "mito", como é conhecido nessas comunidades, façam campanha em seus perfis e comentem em posts, para espalhar o nome de seu candidato. Os comentários do tipo "Bolsonaro 2018" são incentivados em todas mídias, inclusive em matérias sobre outros temas. "Galera, sempre usar #bolsonaro2018 nas publicações", diz um participante do grupo Bolsonarianos-SP. "Sempre faço isso. Excelente para subir o nome dele", responde outro. "Está tendo um ao vivo no Facebook e a pessoal está lá, como se fosse soldado. É como um exército do Bolsonaro mesmo. As pessoas estão passando esse costume de umas para as outras e cada vez menos precisamos lembrar", diz Novais. Os administradores afirmam que discussões com pessoas de opiniões contrárias às do parlamentar, como feministas e petistas, não são estimuladas nos movimentos. Mas não é raro ver bate-bocas virtuais envolvendo o nome de Jair Bolsonaro. Além disso, conteúdos críticos a esses grupos são publicados com frequência no Facebook. Em meados de maio, por exemplo, a página Eu Era Direita e Não Sabia postou uma montagem com as fotos de Dilma e Lula. Na legenda lê-se "roubamos o Brasil todo e ainda tem babacas que nos apoiam".