A IGREJA PERSEGUIDA - A HISTÓRIA DA IGREJA - DUNCAN REILY
Quando se trata da questão da perseguição, há diversos aspectos que devem ser considerados, tais como:
- Quem perseguiu a Igreja? Por que a perseguiram?
- De que consistiu a perseguição; qual a duração e a intensidade das perseguições?
- Como os cristãos encaravam a perseguição e como se portaram mediante ela(s)?
Talvez, para fins de clarificação, devemos fazer algumas breves declarações sobre as perseguições, a fim de responder, de forma sucinta, o tipo de pergunta que nos propusemos acima.
A Igreja nasceu sob a nuvem de suspeita; seu fundador fora crucificado ostensivamente como revolucionário pelo governo romano, instigado a isto pela liderança judaica de Jerusalém a qual viu Jesus como ameaça a seus privilégios e à própria religião judaica como eles a entendiam. Aquilo que fora feito com o líder facilmente aconteceria aos discípulos. Aliás, o próprio Jesus, à medida que havia advertido seus discípulos sobre sua paixão e morte, não deixava de falar-lhes sobre o que lhes esperava (cf. Mt 20.17-28; Lc 21.12; Jo. 15.20; Mc 5.11, 12). Então, quando Jesus foi levado preso, ".. .os discípulos todos, deixando-o, fugiram" (Mt 26.56).
Escondidos e imobilizados pelo medo quando Jesus foi crucificado, os discípulos foram transformados em testemunhas por seu encontro com o Cristo redivivo e pela apropriação do Espírito Santo no dia de Pentecoste. O espaço de tempo mencionado em Atos 2.47 em que os irmãos contavam "com a simpatia de todo povo" foi de curtíssima duração. Pois imediatamente na narrativa de Lucas vem o episódio da cura do coxo por Pedro e João. O povo, de fato, aceita seu testemunho e dois mil se convertem; os sacerdotes e os saduceus, "ressentidos por ensinarem eles o povo e anunciarem em Jesus a ressurreição dentre os mortos" (os saduceus não admitem a possibilidade da ressurreição), prenderam os apóstolos* e os proibiram, sob ameaça, a pregar em nome de Jesus (o que se recusaram a fazer). Mas é apenas o prelúdio de perseguições, sempre às mãos dos judeus (não o governo romano), em escala cada vez mais geral e violenta.
Os apóstolos* todos são presos, açoitados e ameaçados pelos principais sacerdotes (5.40). Estevão, pregando Jesus na Sinagoga dos Libertos, irritou os anciãos, os quais o levaram perante o Sinédrio*, onde ele tentou provar que Jesus fora o profeta prometido por Moisés (7.37), mas eles se enfureceram contra ele e o apedrejaram. "Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a Igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria" (At 8.1).
Saulo (que depois adotará a forma judaica Paulo), o grande perseguidor da Igreja, se converte a caminho de Damasco onde pretendia prender os cristãos, homens e mulheres, que se haviam refugiado ali (anos mais tarde na própria cidade de Damasco, Paulo tentou convencer os judeus que Jesus era o Cristo, mas o resultado foi que eles deliberaram matá-lo e ele teve que fugir de noite, cf At 9.22-25).
O Rei Herodes matou o apóstolo Tiago à espada e prendeu Pedro, o qual escapou (At 12.2-3). Paulo, após um considerável período, presumivelmente de retiro espiritual e reflexão (Gl 2.17-18), parte de Antioquia na companhia de Barnabé na famosa primeira viagem missionária. Eles encontram perseguições em quase todo lugar que vão; em Antioquia de Psídia, são expulsos (At 13.50); em Icônio têm que fugir para escapar do
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apedrejamento (At 14.5, 6); mas são apedrejados em Listra e arrastados para fora da cidade como mortos (At 14.19), tudo isso instigado pelos judeus. Para encurtar a longa história da perseguição da Igreja no Novo TeStamento, podemos lembrar que Paulo, após sua terceira viagem missionária, resolveu ir a Jerusalém, onde foi falsamente acusado de pregar contra a religião judaica e ainda de introduzir um grego (ilegalmente) no templo. Teria sido linchado pelos judeus se não fosse a pronta ação dos soldados e centuriões romanos. Ficou preso por muito tempo e, mediante sua própria escolha, foi levado, ainda preso, à Roma. Mas a real perseguição que sofreu, sofreu-a nas mãos dos judeus e não dos romanos.
Mas o que a Igreja apostólica* sofreu de perseguição às mãos dos judeus ela sofreu ainda em maior escala em Roma. Mesmo no primeiro século d.C, houve duas sangrentas perseguições instigadas por Roma. A primeira foi a de Nero, na década dos 60, em que Nero chegou a iluminar uma corrida de carros com tochas vivas, os corpos cobertos de piche dos cristãos que preferiram a morte à renúncia da sua fé em Nome de Jesus. A segunda foi a do Imperador Domiciano, perto do primeiro século da era cristã. Esta é descrita no livro do Apocalipse, no qual os cristãos são encorajados com palavras como "Sê fiel até a morte e dar-te-ei a coroa da vida" (At 2.1). Esses mártires também nutriam a certeza de que Jesus logo venceria todos os seus inimigos, pois ele era o alfa e o ômega, o Senhor da história. Só ele era digno de abrir o livro do futuro e desatar seus selos At (5.1).
Já no segundo século, o cristianismo havia se estabelecido firmemente na Ásia Menor (moderna Turquia), no Egito (Alexandria), Síria (Antioquia), Roma, África do Norte e Alhures. Em alguns lugares, como Bitúnia, já no início do segundo século, o cristianismo de tal forma atraía a população que os templos pagãos se esvaziavam, o que poderia trazer sobre a cidade a vingança dos deuses desprezados.
Pelo menos, assim pensavam os não cristãos, especialmente aqueles que se viam prejudicados pela vitória cristã. Um exemplo destes seriam os açougueiros que funcionavam nos templos (dos animais imolados, só parte era usada nos sacrifícios, a carne boa era vendida a bom preço!)
Daí o governador Plínio persegue ferrenhamente a Igreja. Qualquer cristão que persistia na sua fidelidade a Cristo pelo mero fato de ser cristão era condenado à morte; aliás, até o tempo de Constantino, no início do quarto século (por volta de 311-313 d.C.), ser cristão era tido como crime digno de morte!
Há muitos exemplos de cristãos que enfrentaram a morte corajosamente, apesar de ameaças e a mais feroz tortura. Deveras, o martírio como a mais perfeita imitação de Cristo era o modelo para os cristãos e as cristãs durante o segundo e terceiro séculos (e começo do quarto, quando desabou a mais cruel e generalizada perseguição de todos). Vejamos alguns breves trechos que nos foram preservados deste período heróico:
1) Inácio, Bispo de Antioquia, foi levado para o martírio em Roma no começo do segundo século. Na própria viagem, ele escreveu 7 cartas. Na carta à Igreja em Roma, ele implorou à Igreja a não usar sua influência para libertá-lo. Ele escreve:
"Sou trigo de Deus e sou moído pelos dentes das feras, para encontrar-se como puro pão de Cristo. Acariciai antes as feras, para que se tornem meu túmulo e não deixem sobrar nada do meu corpo, para que na minha morte não me torne peso para ninguém.
Então de fato serei discípulo de Jesus Cristo."
2) Em 155 a.C, o venerável Policarpo, Bispo de Esmirna, foi levado ao martírio no estádio da sua própria cidade. Os guardas tentaram persuadi-lo a escapar da morte por uma renúncia apenas formal da sua fé:
- "Ora, que mal há em dizer — 'César é Senhor!' e em sacrificar aos deuses como de costume, e assim salvar a SUA vida?"
Após a recusa de Policarpo, os guardas o levaram ao estádio, onde o procônsul também tentou persuadi-lo a apostatar-se para salvar a vida.
- "Considera tua idade... Jura pelo espírito de César, retrata-te; grita 'Abaixo os ateus!' (os cristãos, que adoravam um Deus invisível, do qual não faziam imagens, eram considerados ateus).
Policarpo, muito gravemente olhando para os pagãos que enchiam as escadarias do estádio e acenando para eles, suspirou e exclamou:
- “Abaixo os ateus!”
O procônsul insistiu:
- “Jura, e eu te soltarei. Insulta a Cristo”.
Policarpo respondeu:
- “Oitenta e seis anos há que sirvo a Cristo. Cristo nunca me fez mal. Como blasfemar contra meu Rei e Salvador?”
Policarpo foi queimado vivo.
Era por causa de testemunhas como Policarpo que Tertuliano declarou: - "O sangue dos mártires é semente".
3) Em Leão e Viena, Gália (atual França), houve uma severa perseguição no ano de 177. Nessa ocasião, a população, enfurecida pelo falso testemunho de que cristãos comiam seus próprios filhos e tinham relações sexuais com as próprias mães, maltrataram e até lincharam cristãos. Estes crimes alegados eram, na realidade, uma má interpretação dos sacramentos cristãos, ao que só os batizados assistiam. Na sua Eucaristia, os cristãos comiam o corpo e bebiam o sangue do seu Senhor". Isto cheirava canibalismo! Também participavam de "festas de amor" — o que, à imaginação paga, só poderia significar orgias sexuais!
Entre as vítimas da perseguição foi o velho Bispo Potino, com seus 90 anos. Foi preso e torturado.
"... todo o seu corpo estava gasto, mas reconfortava-o o sopro do Espírito e o desejo do martírio. Então empurrado, sem nenhuma humanidade, foi vítima de muitos ferimentos. Os que conseguiram aproximar-se, injuriosamente precipitaram-se sobre ele com pancadas e golpes, sem levar em conta a sua idade; os que estavam mais longe atiravam nele tudo quanto tinham à mão; todos se teriam considerados réus de impiedade e de grave delito se não ultrajassem ao infeliz. Criam que desse modo vingavam a injúria feita a seus deuses.
Daí, apenas respirando, foi levado ao cárcere, onde entregou a alma dois dias depois.. "
Portanto, em tempos de perseguição, que não eram constantes e nem aconteciam em todo o lugar, os cristãos e as cristãs — dos quais havia muitos que não sofriam apenas às mãos dos magistrados, muitos eram virtualmente linchados, como no caso do velho Potino, pela população irada por causa das calúnias levantadas sobre os cristãos.
Na mesma perseguição, foi martirizada a jovem escrava Blandina, à qual os próprios cristãos temiam que lhe faltasse a firmeza para confessar a fé. Mas, "ela se mostrou tão corajosa, a ponto de cansar e desencorajar os carrascos. Desde pela manhã tiveram estes que se revezar para torturá-la cada vez mais. À tarde confessaram-se vencidos, pois não tinham mais nada a fazer-lhe. Espantavam-se que ela tivesse ainda um sopro de vida, tanto seu corpo estava despedaçado e transpassado; e afirmavam que um só destes suplícios seria suficiente para causar-lhe a morte. Mas a bem-aventurada, como uma valorosa atleta, renovava as forças ao confessar a fé. Esta lhe era um conforto em seus sofrimentos, era-lhe um alívio o dizer: 'eu sou cristã e entre nós não há nada de mal'".

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