"OS SETE" SURGE UM PROBLEMA - A HISTÓRIA DA IGREJA - DUNCAN REILY
Um momento de conflito e de aparente injustiça ameaçou perturbar a paz da Igreja em Jerusalém. Não se tratava de diferença teológica ou doutrinária, mas pode ter tido sua base num preconceito tão profundo que nem era reconhecido por aqueles que o nutriam. Em todo o caso, o resultado era injustiça e prejuízo para as viúvas gregas.
1 – Dar pão a quem tem fome
Antes de entrar numa tentativa de análise do problema e sua solução, vale a pena notar a questão da "distribuição diária". Havia uma notável preocupação na Igreja de Jerusalém de que ninguém passasse necessidades, preocupação essa que ganha mais importância pelo fato de que muitos dos discípulos eram pobres. Viúvas encontraram na comunhão da Igreja não apenas acolhida, respeito e comunidade, mas também amparo material. Tudo isso refletia a atitude do Deus dos cristãos, o qual "Faz justiça aos oprimidos, dá pão ao que tem fome, o Senhor liberta os encarcerados, o Senhor guarda o peregrino, ampara o órfão e a viúva"... (SI 146.7-9; Tg 1.27).
Pois bem: nesta distribuição diária, as viúvas dos gregos estavam sendo discriminadas, provavelmente de maneiras sutis. Talvez tenham sido atendidas depois dos outros, ou nem sempre sobrava para elas. Eram tratadas como pessoas de segunda classe. Eram "esquecidas". Talvez a coisa pior que pode acontecer a alguém — simplesmente não eram vistas como pessoas importantes. E o resultado era que não recebiam ò que deveriam receber na distribuição.
Mas as viúvas, na Igreja, não eram aquelas figuras desamparadas da sociedade comum; havia alguém que, percebendo sua situação, "pôs a boca no mundo" até que se tomasse uma medida satisfatória.
Eis então o problema: a distribuição diária, que visava cuidar das viúvas desamparadas pela sociedade, de maneira bem concreta e de todas elas, independente de sua origem nacional ou racial, não estava atendendo às viúvas gregas.
2 - Caminhando para uma solução:
A primeira coisa a ser notada quanto à busca de solução do problema é que a liderança da comunidade — no caso, os apóstolos* — estava atenta para ouvir o que a comunidade estava dizendo. Os apóstolos* eram pessoas com uma aguda consciência da sua tarefa; eram, antes de mais nada, testemunhas da ressurreição de Jesus (At 1.8, 22; At 2.32, etc), pela qual Deus poderosamente manifestou-O como Filho de Deus (Rm 1.4).
Tendo assim sentido a insatisfação e detectado a injustiça, os apóstolos* se mobilizaram. Tudo indica que tomaram ação logo que perceberam o problema e sentiram as suas dimensões. Não deixaram o problema criar raízes; agiram logo, mas não agiram sozinhos e nem precipitadamente. O problema não era meramente das viúvas, era problema da comunidade que sofre quando apenas um dos seus membros sofre.Portanto, os apóstolos, ou seja, a liderança da Igreja — não um indivíduo, mas a liderança coletiva —convocou não apenas as viúvas e os que até faziam a distribuição. Não, eles convocaram a comunidade para que houvesse uma solução comunitária e global!
Interessante que os Doze não fizeram intervenção, como muito bem poderia ter acontecido. Eles não perderam sua confiança na capacidade dos discípulos de acharem soluções satisfatórias para seus problemas.
Surge uma Solução
Os apóstolos* propõem à comunidade da fé: "Escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios de Espírito e de Sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço" (At 6.3). A Congregação concordou com a proposta, que não foi simplesmente imposta pelos doze. E foram eles que escolheram os sete; pessoas da confiança da Igreja toda. Gostaríamos que tivessem ido um passo além nesse processo de democratização, incluindo algumas das próprias viúvas, mas isto não aconteceu!
Pouco sabemos sobre as pessoas escolhidas para esse serviço. Mas os critérios para sua escolha merecem pelo menos breve menção.
Eram homens de boa reputação, isto é, eram pessoas cuja vivência cristã convencia a todos. Os nomes são essencialmente gregos, o que mostra a maturidade e a sabedoria da comunidade na sua escolha. Gregos seriam mais sensíveis às necessidades das viúvas gregas, presumivelmente as hebréias que, por serem da maioria, não precisariam de proteção na mesma proporção. Os sete nomes escolhidos tiveram, portanto, a confiança da Comunidade como um todo.
Eram homens cheios do Espírito Santo; sua fé era mais do que meramente formal, pois estava fundamentada em um relacionamento pessoal com Deus em Jesus Cristo e a consciência da sua presença e direção.
Eram também pessoas sábias — talvez não muito letrados — mas tementes a Deus, experimentados na vivência da "fé que atua pelo amor" (Gl 5.6). A Igreja não raciocinou: estes homens vão estar fazendo um serviço essencialmente secular ou material, de modo que o que precisamos é de bons técnicos, gente entendida em questões de contabilidade, etc. Não! Embora reconhecendo a necessidade da "sabedoria", as qualificações eram especialmente "espirituais".
É verdade que os Doze pareciam colocar a distribuição diária num plano inferior ao seu próprio. "Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir as mesas" (At 6.2). Como já mencionamos acima, os apóstolos viam como sua função principal testemunhar a ressurreição de Jesus. Em certo sentido, era uma coisa insubstituível. Historicamente, havia apenas um número limitado que havia seguido Jesus desde suas andanças na Galiléia, acompanhando-o também até Jerusalém onde Ele foi crucificado e haviam visto Jesus depois de sua ressurreição. Mas a experiência posterior da Igreja mostra que ambas as pressuposições chegaram a ser seriamente questionadas. Hoje Saulo de Tarso, ou Paulo, é universalmente reconhecido como apóstolo, apesar de nunca ter sido discípulo de Jesus em vida deste e apesar de ter perseguido ferozmente a Igreja. Paulo também teve um autêntico encontro com o Cristo redivivo e passou a ser o maior missionário e teólogo da Igreja apostólica*. É Paulo que também nos dá notícia de uma mulher apóstola*, que ele qualifica de notável entre os apóstolos* (Rm 16.7 — veja especialmente na Bíblia de Jerusalém). Estes dois exemplos e outros que o espaço não permite comentar (cf. At 14.14) deixam claro que, na prática, a Igreja não limitava os
apóstolos* a 12 e nem entendeu que a tarefa de testemunhar a ressurreição era exclusivamente dos doze. Não, isto veio a ser função da Igreja como um todo, passando a própria Igreja a ser chamada de "apostólica"*.
Também no próprio texto de Atos, dois dos Sete se destacaram no ministério da proclamação. Estêvão, descrito como cheio de fé e do Espírito Santo, de graça e de poder (6.5, 8), se destacou nas suas pregações perante a chamada Sinagoga dos Libertos e perante o Sinédrio; tão corajosamente pregou Jesus como o cumprimento das profecias que foi apedrejado, tornando-se o primeiro mártir Cristão. A pregação de Filipe em Samaria se acompanhou de sinais e curas (8.6, 7); é ele, através da conversão do eunuco também, o evangelista indireto da Etiópia (8.26-39). Não sabemos dos outros cinco, mas não somos obrigados a pensar que eles se dedicaram exclusivamente à distribuição de alimentos.
Finalmente, a importância desta obra, que se assemelha aos "Atos de misericórdia" no Plano Vida e Missão, é tão evidente que os apóstolos* formalizaram a eleição dos sete com um ato pleno de solenidade: "orando, lhes impuseram as mãos" (6.6), É este ato solene de imposição de mãos, julgado como uma espécie de ordenação, que tem convencido muitos estudiosos no decorrer dos anos que Atos (6.1-7) efetivamente narra a instituição da ordenação de diáconos. Outros argumentam, por causa da ausência do termo Diácono no trecho todo e, deveras, em todo o livro de Atos, que a ordem teria surgido depois, embora não haja nenhum consenso sobre onde e quando. Não é nosso propósito tentar desvendar este mistério, nem é necessário, pois podemos tirar algumas conclusões importantes do acontecimento sem dar a Estêvão, Filipe e os outros nenhuma designação mais precisa que "Os Sete". Já terá sido notado o seguinte:
a) A Igreja apostólica* buscava socorrer os oprimidos e, em particular, as viúvas;
b) Neste sentido, diariamente ela distribuía comida e outras coisas necessárias à sustentação dos necessitados;
c) Quando surgiram práticas discriminatórias na distribuição, ela procurou, através de processos comunitários, chegar a uma solução satisfatória para todos;
e) Nesse processo, formalizou-se um grupo dentro da Igreja de Jerusalém que teria a responsabilidade desta distribuição diária;
f) Na prática, isto não resultou em uma dicotomia de funções "espirituais" e "materiais-sociais", e nem os Sete se restringiram à função da distribuição!
Falta colocar a seguinte questão:
"Os Sete" representam uma instituição permanente na Igreja de Cristo? A resposta definitiva gira em torno da questão se realmente a ordenação dos Sete constitui o estabelecimento da ordem dos diáconos, uma ordem que veio a ser considerada como paralela aos Levitas entre os Judeus (sendo os presbíteros e bispos como equivalentes aos sacerdotes e sumo-sacerdotes, respectivamente). Mas a opinião dos peritos sobre isto está dividida, e não convém sermos dogmáticos.
Mesmo sem decidir sobre esta questão maior e genérica, a maneira que a Igreja de Jerusalém agiu na solução de um problema existencial pode nos fornecer "dicas" hoje. Face a um problema que seriamente ameaçava a paz da Igreja e que mostrava uma falha na sua prática de amor (Atos de Misericórdia), a Igreja como um todo agiu de modo sério,responsável, ponderado, democrático e comprometido. Como comunidade, sob a direção do Espírito, a Igreja nem ignorou o problema e nem tentou escondê-lo ou subestimar sua importância. Pelo contrário, enfrentou o problema aberta e inteligentemente e buscou uma solução que lhe fosse adequada.

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