INTRODUÇÃO AS FACES DA ESPIRITUALIDADE - BACHAREL EM TEOLOGIA NO SEMINÁRIO PRESBITERIANO DO SUL EM CAMPINAS, DOUTORADO EM MINISTÉRIO NO REFORMED THEOLOGICAL SEMINARY, EM JACKSON, MISSISSIPPI, NOS ESTADOS UNIDOS E PASTOR DA PRIMEIRA
O homem é um ser religioso. Desde os tempos mais remotos, ele tem levantado altares. Há povos sem leis, sem governos, sem economia, sem escolas, mas jamais sem religião. O homem tem sede do eterno. Deus mesmo colocou a eternidade no coração do homem.
Cada religião busca oferecer ao homem o caminho de volta para Deus. E a tentativa de¬sesperada de reconciliação com Deus. A detur¬pação do pecado, a sagacidade do diabo e a corrupção do mundo entenebreceram a mente humana, e o homem perdeu-se no cipoal desta busca do sagrado. Religiões esdrúxulas são en¬gendradas com vistas a arrastar os homens para os corredores escuros do obscurantismo espiri¬tual. O pecado embruteceu o homem, o diabo cegou o seu entendimento e por isso, cada vez mais, as religiões afastam os homens de Deus, em vez de aproximá-los. A religião é um cami¬nho que o homem tenta abrir da terra para o céu. E uma tentativa desesperada e fracassada de chegar a Deus pelos próprios esforços. E a repetição do malogrado projeto da Torre de Babel. Na selva espessa das paixões corrompi¬das, no labirinto das ilusões e nos abismos tene¬brosos da alma humana, não se encontram res¬postas seguras que possam satisfazer os anseios da alma, nem há condições de pavimentar uma estrada de volta do homem para Deus.
O pecado rompeu a harmonia e a comu¬nhão do homem com Deus, consigo mesmo, com o próximo e com a natureza. O pecado desestruturou o homem e todas as suas relações. O pecado atingiu e afetou o homem como um todo e atingiu cada área da sua vida.
Aquele que foi criado à imagem e seme¬lhança de Deus tornou-se um ser ambíguo, con¬fuso e contraditório. De dentro do coração do homem vasa uma torrente caudalosa de sujida¬des. O coração humano tornou-se enganoso e desesperadamente corrupto, um poço de senti¬mentos mesquinhos e desejos abomináveis. A corrupção do meio nada mais é do que o transbordamento da maldade que está em ebulição no coração do homem. Onde quer que o ho¬mem põe a mão, ele contamina o ambiente. Em virtude dessa dolorosa realidade, surgiram e ain¬da surgem milhares de religiões, criadas pelo engenho humano, por mentes corrompidas, es¬píritos manietados e subservientes aos caprichos do diabo, para afastar ainda mais os homens de Deus. Há, portanto, muitos "altares espúrios, muitos deuses falsos, muitos cultos abominá¬veis para Deus. Não poucas vezes, o homem adora a criatura em lugar do criador. Outras vezes, o homem em rebelião contra Deus serve deliberadamente aos próprios demônios. Há ainda aqueles que, entorpecidos pelo veneno do pecado, vivem e morrem por heresias crassas que subjugam as consciências no claustro da mais repugnante ignorância espiritual. O que é mais chocante é que há também aqueles que, mesmo conhecendo a verdade, adotam um modelo do¬entio de espiritualidade.
Testemunhamos hoje o florescimento do humanismo exacerbado. Tudo gira em torno do homem. O homem é o centro e a medida de todas as coisas. A vontade do homem deve ser sempre satisfeita. Até mesmo a religião precisa adequar-se às pesquisas de mercado. A verdade perdeu o seu valor fundamental para esta gera¬ção humanista. As pessoas embaladas pelo pragmatismo emergente buscam não a verdade, mas o que funciona: não o que é certo, mas o que dá certo. Assim, os cultos mais freqüentados são aqueles que supervalorizam a experiên¬cia, ainda que não aferida pela verdade revelada de Deus. Prevalece o subjetivismo. O que está em voga hoje não é o estudo sério, analítico e profundo das Escrituras, mas uma consulta su¬perficial, mística e sentimental da Palavra. As¬sim, não há necessidade de seguir as leis da hermenêutica sagrada, pois a interpretação das Escrituras ganhou um contorno mágico e so¬brenatural. O estudo da Bíblia passou a ser irrelevante: o que importa é o que o Espírito revela no momento, através de pessoas inspira¬das. A luz interior tornou-se mais importante do que a revelação escrita de Deus. As pessoas estão ávidas para ouvir os profetas do subjetivismo e os intérpretes de sonhos, em vez de examinar as Escrituras. Correm atrás do mís¬tico, não da verdade.
Esse expediente tem facilitado o caminho de retorno à falsa doutrina do sacerdócio. Seres humanos comuns precisam da mediação de uma pessoa espiritual e iluminada para trazer-lhes uma revelação de Deus. A Palavra escrita de Deus precisa passar pela interpretação mística e subjetiva de uma pessoa com quem Deus fala diretamente. Com isso, a verdade bíblica do sacer¬dócio universal dos crentes tem sido atacada a partir de seus alicerces. Em virtude desse des¬vio, floresce no meio evangélico uma procura cada vez maior por profetas e profetisas que possam interpretar sonhos e visões e trazer direto para o povo os mistérios da vontade de Deus. Mergulhados cada vez mais em um analfabetis¬mo bíblico, os incautos fluem aos borbotões para esses redutos, sorvendo sem questionar todo o ensino que brota do enganoso coração huma¬no, em vez de beber da água limpa que jorra das Escrituras. Cavam cisternas rotas e abandonam a fonte das águas vivas. Seguem conselhos de homens e deixam os preceitos do Senhor. Obe¬decem cegamente a líderes pseudo-espirituais e rejeitam a suficiência das Escrituras.
O que está na raiz dessa tendência é o antropocentrismo idolátrico. A preocupação do homem moderno é agradar a si mesmo, e não a Deus. Ele quer sentir-se bem. Quer ter experi¬ências arrebatadoras. Ele busca experiências que lhe provoquem calafrios na espinha. Ele tem sede do sobrenatural, está ávido por ver sinais e ma¬ravilhas, e anda atrás de milagres. Para o ho¬mem moderno, a religião precisa apelar não à sua razão, mas às suas emoções. Ele não quer conhecer, quer sentir. O culto não é racional, é sensorial. Sua mente está embotada, sua razão adormecida. Não importa o que as pessoas fa¬lem, desde que ele experimente uma catarse. Ele não quer julgar os fatos: para ele, tudo o que parece ser sobrenatural é bom. O místico so¬brepujou a verdade. O sentimento prevaleceu sobre a razão. As emoções assentaram-se no tro¬no. Elas têm a última palavra. Para muitas pes¬soas, a religião está-se transformando em um ópio, um narcótico que anestesia a alma e colo¬ca em sono profundo as grandes inquietações da mente.
Para continuar alimentando o homem com fortes emoções e mantê-lo em contínuo estado de êxtase, é preciso criar novidades a cada dia. O culto, então, passa a ser elaborado com vistas a despertar fortes emoções. A música é executada para mexer com os sentimentos. A mensagem é pregada para atender ao gosto da freguesia. Tudo está centrado no propósito de agradar ao homem e. satisfazer seus anseios. E o culto do homem para o homem. E o culto da terra para a terra. E o culto-show, em que o dirigente precisa ter um desempenho eficaz na arte de manipular as emoções. Em 1998 visitei a Igreja Toronto Blessing no Canadá. Dali surgiu a teologia do sopro e da gargalhada que se espalhou para vários lugares do mundo. Observei atentamente as pessoas que entraram no templo. De repente, elas começa¬ram a cantar em estado de êxtase. Caíram ao chão e ficaram estiradas no assoalho, como se estivessem em profundo sono. Outras começa¬ram a dar gargalhadas sem parar. Uma aura mís¬tica envolveu o ambiente. A música suave en¬chia o santuário e grande parte dos ouvintes entrou em uma espécie de catarse. Não vi nin¬guém com a Bíblia. As pessoas não estavam ali buscando o conhecimento de Deus, mas encon¬trar a si mesmas. Elas queriam sentir-se bem.
Hoje, muitas igrejas brasileiras têm entra¬do pelo mesmo caminho místico. As pessoas buscam os sopros poderosos, as visões celestiais, as revelações forâneas às Escrituras, as experiên¬cias arrebatadoras, as emoções fortes, mas con¬tinuam cada vez mais vazias.
Essa espiritualidade cênica e teatral traz fogo estranho diante do Senhor. O culto não pode ser apenas um veículo para atender às nos¬sas necessidades emocionais. Não pode ser ape¬nas uma expressão cultural. O culto deve ser bíblico, balizado pela verdade revelada de Deus. Jesus declarou à mulher samaritana que Deus não está procurando adoração, mas adoradores que o adorem em espírito e em verdade. Antes de aceitar o nosso culto, Deus precisa aceitar a nossa vida. Jesus falou sobre o fariseu que foi ao templo para orar. Ele não fez uma oração, mas um panegírico de auto-elogio. Trombeteou suas próprias virtudes, ao mesmo tempo que, com palavras ácidas, assacou acusações pesadas con¬tra o publicano, o qual, por sua vez, não ousou levantar os olhos, mas clamou com angústia de alma: "Ó Deus, sê propício a mim, pecador". Aquele que se exaltou, foi humilhado, mas o que se humilhou, foi exaltado. O fariseu teve um bom desempenho diante dos homens, mas foi reprovado na presença de Deus. O publicano, porém, desceu justificado. Aos olhos de Deus, não basta ter um bom desempenho diante do auditório: ele vê a vida do adorador. Deus agradou-se de Abel e de sua oferta, mas rejeitou a Caim e à sua oferta. Antes de ter prazer na ofer¬ta de Abel, Deus se agradou do próprio Abel. Antes de rejeitar a oferta de Caim, Deus rejeitou a própria vida de Caim. Os filhos de Arão chegaram com fogo estranho diante do Senhor. Deus os destruiu e lhes rejeitou o culto. Todo fogo estranho é abominação ao Senhor. Não adianta ter um culto carismático se a vida do adorador é imoral. Não adianta expulsar demô¬nios, se o exorcista é desonesto em seus negóci¬os. Não adianta falar em outras línguas no cul¬to e depois entregar-se à maledicência em casa. Não adianta apresentar a oferta no altar, se o coração é um poço de inveja e amargura. Pela boca do profeta Isaías, Deus disse que já estava cansado do culto do seu povo, que o honrava apenas de lábios, mas o coração estava distante dele. O profeta Amós chegou a dizer que Deus não tolerava mais ouvir as músicas religiosas do povo em virtude de seus pecados. O profeta Malaquias afirmou em nome do Senhor que é inútil o culto no qual Deus não é respeitado e honrado.
O culto aceito por Deus deve passar por dois crivos fundamentais: 1. Precisa ser verda¬deiro - Não podemos ter uma religiosidade centrada na preferência ou no gosto do auditó¬rio. O culto precisa ser bíblico. O culto é teocêntrico, e não antropocêntrico. A verdade de Deus não é subjetiva ou indefinível. Os prin¬cípios de Deus são supraculturais e eternos. Não podemos chegar com fogo fabricado, logo es¬tranho diante de Deus. O fogo estranho é boni¬to, é quente, é atraente, é fruto do esforço hu¬mano, mas não vem do céu: é fabricado na ter¬ra, é uma conspiração contra o verdadeiro fogo, uma abominação para Deus (Levítico 9). Nem sempre aquilo que impressiona os homens, im¬pressiona a Deus. Aquilo que os homens aplau¬dem, muitas vezes, é abominação para Deus. O culto ou é bíblico, ou é anátema.2. Precisa ser sincero - Jesus disse que o culto deve ser em espí¬rito, ou seja, de todo o coração e com todo o coração. Antes de ofertar no altar, precisamos oferecer-nos a Deus. A vida vem antes da ofer¬ta. A nossa vida deve confirmar no altar de Deus a nossa adoração. Há pessoas que são sinceras, mas não adoram em verdade. Prostram-se dian¬te de imagens feitas por mãos humanas, fazem votos e promessas aos santos, oram e clamam àqueles que já morreram e por aqueles que já morreram. Outros fazem longas procissões para agradar aos seus santos de devoção. Curvam-se diante de imagens de barro, pensando com isso estar agradando a Deus. Essas pessoas podem ser sinceras, mas estão cegas, equivocadas. Há também os que são verdadeiros, mas não são sinceros. São ortodoxos, mas não piedosos. Se¬guem a letra da lei, mas não o espírito da lei. Honram a Deus com os lábios, mas o coração. está longe do Senhor. Conhecem a verdade, mas não lhe obedecem. Cantam hinos de louvor a Deus, mas o desonram com a própria vida. professam uma coisa e fazem outra. Pregam uma coisa e vivem de modo completamente oposto. Têm nome de que vivem, mas estão mortos. Têm luz na mente, mas lhes falta fogo no coração. Têm conhecimento, mas carecem do óleo da unção sobre a cabeça.
O texto de Lucas 9.28-43 fala-nos sobre três tipos de espiritualidade. Mostra-nos uma maquete da nossa religiosidade, uma fotografia do nosso coração e uma diagnose da nossa condição espiritual. O exame desse texto levantará a ponta do véu e mostrará os extremos perigosos em que a igreja tem caído. De um lado, temos uma igreja mística, mas sem conhecimento. Do outro, temos uma igreja que discute muito, mas sem poder espiritual. Precisamos encontrar nesse vácuo a verdadeira espiritualidade, aquela vivida pelo Senhor Jesus. É desse empolgante assunto, as faces da espiritualidade, que trataremos neste livro.

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