O General Romano – IV - OS MÁRTIRES DO COLISEU - A. J. O'REILLY
A grande capital do Império Romano encontrava-se em total comoção. Notícias do leste diziam que os persas, e outras nações, haviam atravessado a fronteira, e estavam devastando tudo diante de si. Os veteranos poliam as espadas, e exércitos de jovens afluíam de todas as províncias. Rumores recentes do avanço do inimigo deram um novo impulso à agitação, e uma expedição de magnitude e importância maiores que as usuais foi rapidamente preparada. A alma arrogante de Trajano, que ainda ocupava o trono dos césares, não podia tolerar, nem por um momento, a menor violação do Império, ou o arrefecimento de sua glória pessoal. Ele não perdeu tempo nem poupou despesas ao lançar-se rápida e pesadamente sobre o ousado inimigo. Mas a quem confiaria ele as legiões bélicas e o próprio destino do Império? À sua volta só via jovens e homens inexperientes.
Trajano pensou em Plácido, o grande general, ídolo do exército e terror dos inimigos, o comandante de sua cavalaria, que em tempos passados levara a maré da vitória aos mais distantes termos do Império, Ouvira boatos de que ainda estava vivo, mas afastado da vida pública. Trajano agarrou-se a esses boatos com a avidez de um homem cuja esperança malograra, e arriscou tudo numa última oportunidade. Ofereceu generosa recompensa a quem descobrisse o refúgio de Plácido e o trouxesse novamente ao comando das legiões de ferro de seu Império. Ardendo de ansiedade e dúvidas, ele foi adiando de um dia para outro a panida da expedição, esperando receber notícias de seu general favorito.3 E o soberano não foi desapontado: encontraram Plácido.
Dois veteranos, Antíoco e Acácio, partiram para as províncias egípcias, à procura de Plácido. Suas incessantes perambulações e inquirições já pareciam infrutíferas, quando, certa manhã, prestes a desistirem da busca, passaram por uma bela e bem cuidada fazenda, e avistaram, a curta distância de si, um pobre lavrador. Aproximaram-se do homem, e indagaram se não vivia por aquelas bandas um certo cidadão romano, chamado Plácido.
Os dois soldados acreditaram ter visto algo naquele homem que lhes recordava o seu general; a nobreza de sua aparência e conduta falava de alguém que já conhecera dias melhores. Eles até pensaram ver em suas feições cansadas, bronzeadas pelo sol e enrugadas pelo desgosto, alguns traços do amável semblante de Plácido. Contudo... não podia ser... Seu general um exilado? Um lavrador naquele lugar miserável? Que reverso da fortuna o teria reduzido a isto? Como poderia um homem tão importante haver sido lançado da honra e da glória à obscuridade e a pobreza?
Mas o homem com os andrajos de lavrador pobre reconhecera naqueles soldados dois dos mais bravos veteranos de suas legiões.' A lembrança das guerras e batalhas c vitórias de outros tempos cruzou-lhe a mente; o papel que aqueles dois tiveram na derrocada do inimigo, sua bravura ao seu lado nos campos de batalha, as cicatrizes recebidas nas lutas sangrentas - tudo assaltou-o num momento, despertando cada bravo sentimento de sua alma. Plácido estava prestes a correr para eles de braços abertos, mas a prudência reteve-o onde estava, e numa atitude de autocontrole, suprimiu seus sentimentos exaltados. Compondo-se dignamente com um suspiro que por si só revelava a luta dentro de si, o general perguntou: — Por que estais procurando por Plácido?5
Enquanto Antíoco relatava como os adversários haviam uma vez mais declarado guerra no leste, e que o imperador desejava confiar a expedição unicamente àquele general, e por isso enviara à sua procura, a todas as partes, os soldados que haviam servido sob suas ordens, Plácido não pôde mais conter os sentimentos. Abrindo a rude vestimenta que lhe cobria as cicatrizes do peito, mostrou-as aos dois veteranos atônitos, e revelou-lhes ser o general que procuravam. No momento seguinte, eles estavam abraçados ao seu pescoço, e derramando lágrimas de alegria.
Uma vez Roma fora salva pelo bravo Cincinato, levado de seu arado para defender a cidade ameaçada. Como esse grande chefe do passado, Plácido foi recebido com alegria pelo povo; a confiança do exercito foi restaurada, e um novo alento surgiu em todas as tropas. Combates e triunfos foram antecipados e declarados antes de serem lutados e alcançados. O imperador deleitou-se; abraçou o antigo comandante da cavalaria, ouvindo com interesse a história de suas vicissitudes, suas perdas e luto. E prendendo-lhe à cintura o cinto de ouro do comando consular, suplicou-lhe que desembainhasse uma vez mais a espada em prol do Império." 0 santo homem já havia reconhecido, na humildade e prece de seu coração, que a grande mudança vinda de modo estranho e repentino era uma disposição do amor c providência de Deus; e preparara-se. mesmo em sua idade avançada, para conviver novamente com o ruído das armas e a fadiga da guerra. Durante a sua provação e resignação nos campos solitários do Egito, o Espírito Santo já lhe revelara que logo chegaria o dia da restauração de tudo o que ele perdera neste mundo. Eis aqui o primeiro passo no cumprimento de seu sonho; vejamos como Deus realizou o restante:
Enquanto Plácido coloca em ordem o seu rude exército, e exercita seus soldados na terrível ciência da guerra, retrocedamos alguns anos, e demos uma olhada na pobre e infeliz Teopista deixada no barco daquele capitão tirano, que cruelmente a separara de seu marido e de seus filhos.
Sem dúvida, na empatia de seu coração piedoso, o leitor compadeceu-se dela em sua aflição, e esperou que alguma circunstância afortunada viesse salvá-la. Acaso o Todo-Poderoso já abandonou seus filhos quando a pureza é ameaçada? Não lhe comove o coração a inocência indefesa de uma mulher? Na história do passado, nenhuma virtude foi mais visivelmente protegida pelo céu que a castidade; nenhum vício despertou maior vingança que a castidade; nenhum vício despertou maior vingança que a impureza. A sua oração por proteção de sua inocência não apenas varou as nuvens, como arrancou dei» o raio que atingiu o opressor com julgamento.
Não tema pela virtude e fidelidade de Teopista. Deus é o seu escudo. Quem pode prevalecer contra o Altíssimo? Os meios que Ele adota para proteger seus servos são silenciosos, consoladores e misericordiosos.7 Deus não acertou o capitão com um golpe merecido, ma inspirou-lhe no coração um sentimento de ternura e piedade que o fez corar pela crueldade que fizera à jovem mãe. Mal o vento afastara a embarcação das vistas de Plácido e dos meninos, os soluços do coração partido de Teopista suscitaram um fio de piedade nos sentimentos do pagão. Ao mesmo tempo. Deus removeu-lhe os estímulos da carne, e o fez amar e admirar em sua cativa a virtude que ele jamais conhecera. A alma virtuosa é como uma árvore frutífera em florescência: libera a sua fragrância em cada brisa, e espalha na atmosfera um delicioso aroma. A sublimidade da virtude que brilhou na fidelidade da matrona cristã, e a paciência e o perdão daquela filha da desdita venceram de tal modo o capitão, que, em vez de ser seu inimigo e opressor, tornou-se seu protetor e guardião. Desembarcou Teopista no porto seguinte, e deu-lhe dinheiro e víveres para que se sustentasse por algum tempo. Ela também teve a sua cota de provações; quinze anos de sofrimento e exílio com provaram-na merecedora da alegria e da coroa reservadas para ela.
Tudo pronto, a expedição partiu para o leste. O espírito de alegria e bravura que animava lados prenunciava os maiores triunfes. Eles fluíam aos milhares pelos portões orientais da cidade, e enquanto o sol matinal refletia em sua alabardas e lanças lustrosas. as tumbas de seus monos importantes, alinhadas na Via Apia, faziam ecoar uma vez mais as canções de guerra das irresistíveis legiões do Império Romano. O líder octogenário - Plácido, o cristão -comandava a retaguarda, numa biga puxada por dois belos cavalos árabes.
E desnecessário demorar-nos sobre a narrativa, tantas vezes repetida, do triunfo romano.
As legiões despejaram-se como avalanches alpinas sobre o território inimigo, esmagando em sua passagem tudo o que se lhes opunha. Não apenas os rebeldes eram sujeitados, como a águia conquistadora estendia suas asas sobre novos domínios, e novas províncias eram acrescidas ao vasto território dos césares.
A brandura e a habilidade de Plácido sabiam transformar em bem todas as coisas; em suas conquistas, evitava a mortandade e o derramamento de sangue desnecessários. Ele perdoava livremente, e nunca retribuía a resistência de um povo corajoso com as retaliações tão terríveis das crônicas da guerra pagã.
Todo exército tem seus heróis. A campanha de Plácido estava quase no fim, quando se revelaram os seus verdadeiros soldados. Onde a conquista fora fácil, todos eram bravos; chegado porém um momento de perigo e provação, os louros da fama distinguiram aqueles que o mereciam. O exército foi surpreendido numa emboscada, mas salvo pela pronta ação de dois moços pertencentes á unidade dos númidas. Eram dois jovens corajosos, que se haviam conhecido nas fileiras e se tornado amigos. Estavam ambos vagueando fora do acampamento, quando ouviram o grito: "Às armas!"' Correram à vanguarda como leões, e animaram os companheiros. Lutaram juntos contra forças terríveis, mas suas alabardas eram manejadas rápida e habilmente, causando destruição por toda pane. Com alguns bravos companheiros, resistiram ao progresso do adversário até que o seu próprio exército ficasse livre. Uma resistência tão brava e inesperada causou pânico nas fileiras inimigas, que fugiram ao massacre. Alguns milhares foram mortos, e o exército da oposição foi tão completamente destruído! que nunca mais foi visto no campo de batalha.
O general vira tudo o que se passara, e quando a batalha chegou ao fim, mandou chamar os dois heróis que salvaram o exército, elevou-os ao cargo de capitão, e concedeu-lhes a honra de sua amizade.
O exército avançara de triunfo em triunfo, e devemos agora descortinar o cenário de nossa narrativa: uma planície agreste na costa da Arábia, onde eles estavam acampados antes dl retorno à capital. Viam-se cabanas de pescadores a beira-mar, e aqui e ali, às margens férteis de um rio, pequenas e graciosas casas cercadas de jardins c vinhedos. Dentre elas, uma destaca se pela beleza, no suave declive para o rio. Pertencia a uma pobre viúva, que vivia dos frutos de seu quintal e do trabalho de suas mãos.
O velho general, fatigado da batalha, armou aí a sua barraca, pretendendo descansar um pouco antes de empreender a fatigante viagem de volta. Junto dele ficaram os dois jovens capitães, a quem ele fizera seus confidentes, e tratava como filhos adotivos. Certamente, o ancião via na juventude e beleza dos rapazes o que os seus próprios filhos teriam se tornai se suas vidas houvessem sido preservadas. Uma atração invisível fez com que ele os amasse ternamente, não suportando que se separassem dele. Os moços também desenvolveram uma profunda amizade entre si. A semelhança nos sentimentos e disposição, o amor secreto pela virtude, e um certo traço de nobreza em cada pensamento e ação, não apenas os ligava como os laços inseparáveis da harmonia, mas os elevava na estima de quantos os conheciam.
Um dia, como de costume, passeavam eles à margem do regato. À sua volta, tudo era frescor e beleza. Os pássaros cantavam nas árvores, e as flores, que cresciam abundantemente na vizinhança, espalhavam mil odores na brisa que ondulava a superfície da água. Os dois soldados sentaram-se à sombra de uma figueira, e entabularam animada conversa.8 O mais velho era alto e bonito, e aparentava ter dezoito anos; parecia ser uns dois anos mais velho seu colega. Era um jovem de ânimo calado e gentil, e às vezes parecia absorto em pensamentos, como se uma nuvem pairasse sobre ele. O amigo já notara isto, e particularmente nesse dia, observou que, durante a conversa, ele parava e olhava distraidamente para o riacho, que corria rápido e mais volumoso, em conseqüência das chuvas que caíra sobre as montanha vizinhas. Naquela familiaridade permitida pela amizade comprovada, o mais jovem indagou do companheiro a causa de sua preocupação.
— Faz algum tempo que nos conhecemos — começou o jovem capitão —. e percebo que tens trancado no coração um segredo que me consolaria e interessaria ouvir. Conta-me a tua história, para que eu participe da tua tristeza. Tu sabes que sou teu amigo.
O outro fitou-o com bondade, ao mesmo tempo que parecia ler-lhe o semblante para ver se era de fato sincero. Depois, voltando os olhos o céu e suspirando, puxou a mão do companheiro para que se aproximasse mais. e confessou exaltadamente:
— Sim, vou contar-te uma estranha história, mas tu não deves trair-me o segredo. Sou um cidadão romano, e sou cristão.
O jovem sobressaltou-se como que abalado por um trovão, mas o outro, impedindo-o de dizer uma palavra, e chamando-o pelo nome, continuou num tom majestoso e cheio de bondade:
— Embora eu tenha me alistado no exercito romano na mesma província que tu, não nasci lá. Meu pai era um general romano, e homem de grande apreço. Lembro-me de um dia, quando eu tinha cinco anos, ele saiu para caçar, e só voltou na manhã seguinte. Chegou em casa agitado e disse coisas que fizeram minha mãe chorar. Na noite seguinte, quando estava tudo escuro e silencioso, meu pai levou-me a mim e a meu irmãozinho, que tinha apenas três anos, a uma caverna sombria. Depois de passarmos por corredores escuros e sinuosos, entramos num compartimento iluminado, Lá estava um homem idoso, sentado numa cadeira de pedra, usando no pescoço uma bonita estola. As paredes do pequeno quarto estavam cobertas de figuras de homens, peixes e cordeiros. 0 venerável ancião conversou com meu pai e minha mãe por um longo tempo. Não recordo todas as suas palavras, mas ele falou do Deus verdadeiro, desconhecido dos pagãos, e de todas as coisas boas que Deus fizera pelo homem: como o amara e morrera por ele. e lhe prometera felicidade eterna. Meus pais ficaram visivelmente afetados, e meu pai chorou novamente, como se tivesse feito algo errado. Então o velho batizou-nos nas águas, e deu-nos nomes diferentes. Recebi o nome de Agapo. Quando, após várias orações, deixamos aquele lugar, meus pais pareciam regozijar-se. Sem poder parar com a sua historia, o jovem continuou:
- Logo depois, meu pai perdeu tudo o que possuía; seu gado e seus cavalos morreram de uma terrível moléstia: ate os escravos e servos morreram. Deixamos então a nossa casa, e fomos para uma vinha fora da cidade. Em sua ausência, meu pai foi roubado de tudo o que possuía, e reduzido à pobreza. Então, uma noite, ele levou minha mãe, meu irmão e eu ao litoral, c embarcamos num navio, passando quinze dias no mar agitado. Quando aportamos, meu pai, meu irmão e eu fomos enviados à terra, mas minha mãe ficou no navio, que partiu imediatamente. Oh! Nunca esquecerei a aflição de meu pobre pai naquela ocasião.
O jovem enterrou o rosto nas mãos, e chorou por algum tempo. Enquanto isso, uma lágrima passou despercebida pela face de seu companheiro. Levantando novamente a cabeça, ele continuou a história em meio a lágrimas e profundos suspiros.
- Meu pai pegou meu irmão no colo, enquanto puxava-me pela mão, e entramos naquela região. Chegamos a um rio de correnteza veloz, e como meu pai não podia levar-nos a ambos de uma vez, mandou-me ficar à margem, enquanto levaria primeiro meu irmãozinho, e prometeu voltar para buscar-me. Entretanto, atravessava ele o rio, quando... Oh! Nunca esquecerei! Um leão saiu do mato e agarrou-me.
Um estremecimento passou pelo jovem ouvinte. Sem controlar a agitação, ele gritou:
— Que estranho! Mas conta-me, como foste salvo?
O moço parecia em grande comoção. Algumas palavras vieram-lhe aos lábios, mas ele as reprimiu e ouviu com uma ansiedade inerte o restante da narrativa.
— Bem — prosseguiu o jovem capitão —, gritei por socorro, mas era tarde demais. O leão apanhou-me com a boca... ainda tenho no corpo as marcas de seus dentes... e carregou-me para a floresta. Afortunadamente, passavam por ali alguns pastores. Ao ver-me presa do leão, soltaram os cães atrás dele. Um dos cães agarrou-me e pôs-se a puxar-me, então o leão me largou e agarrou o cão, indo embora com ele. Os pastores levaram-me a sua casa, onde uma boa mulher deitou-me na cama e cuidou de mim. Recuperei-me e cresci naquela casa, mas nunca mais vi meu pai e meu irmão.
Apertando o braço do amigo, e com os olhos rasos d’água, ele completou:
— Não admira, meu amigo, que eu esteja triste. Este riacho, estas árvores, e esta planície agreste onde estamos acampados recordam-me aquelas terríveis cenas de minha infância. Acaso posso esquecer o dia em que perdi pai, mãe, irmão, tudo?
Ele não pôde dizer mais nada; escondeu novamente o rosto nas mãos e chorou amarga¬mente.
Não obstante, observara, enquanto contava sua história, que seu amigo ficara cada vez mais emocionado, e de tempos em tempos deixava escapar frases desconexas e expressões de surpresa, como, "Estranho! Deve ser! Oh. céus!".
Após um instante de silêncio, o mais jovem gritou com força e exaltação:
— Ágapo, acho que sou teu irmão!
— Como? — espantou-se o outro. — Fala! Dize o que estás pensando, ou... Tu estás menosprezando o meu sofrimento?
— Também perdi meus pais na infância — replicou rapidamente o jovem. As pessoas que me criaram contavam que haviam me salvado de um lobo perto do rio Cobar, e que eu era de uma nobre família romana, por causa desse ornamento de ouro que trago ao pescoço.
Enquanto ele levava a mão ao peito para pegar o adorno, o outro pôs-se de pé num salto, e gritou:
— Mostra-o! Ele tem gravado o nome Teopisto e o mês de março?
— Sim, aqui está.
Agapo, reconhecendo a medalha que sua mãe lhes pendurara ao pescoço na manhã seguinte ao batismo, tomou nos braços o jovem, exclamando:
— Meu irmão! Meu irmão!
As explicações não apenas colocaram o fato além das dúvidas, como puseram juntos os dois irmãos durante horas, abraçando-se, volta e meia, com lágrimas de afeição. Contaram um ao outro todas as minúcias de suas vidas. Teopisto fora salvo do lobo por um lavrador, que o criara como um de seus filhos. Eles cresceram separados por poucos quilômetros, e não o sabiam, mas Deus, cujos caminhos são inescrutáveis, reuniu-os no exército romano, a fim de restitui-los aos pais como recompensa por sua virtude. A alegria dos jovens estava para ser acrescentada por outra descoberta ainda mais consoladora e extraordinária. O leitor ja sabe: o general era seu pai.
Quando a comoção do primeiro momento amainara, concordaram em procurar o general e informá-lo da incrível descoberta. Encontraram o ancião em sua tenda, sentado à mesa tosca. a face oculta nas mãos, absorto em meditações.
O mais velho correu para ele, e anunciou que tinha notícias surpreendentes e alegres para dar-lhe. O general levantou a cabeça; seus olhos estavam úmidos, e uma nuvem de melancolia sobreava-lhe a fronte. Olhando com um sorriso paterno os jovens animados, convidou:
— Então falai, meus filhos, pois a vossa alegria será a minha. A felicidade dos outros faz-nos esquecer nossas tristezas; vossas palavras virão como um raio de sol para o meu coração melancólico. Ah, este dia me trouxe tristes reminiscências... É o aniversário de uma série de infortúnios que me privaram de minha esposa e meus filhos.
Plácido fez uma pausa, e erguendo ao céu os olhos turvos de lágrimas, exclamou: — Mas é a vontade dEle, que reina sobre tudo. Ele deu, e Ele tomou; bendito seja seu santo nome!
Os jovens estavam estupefatos. Era a primeira vez que o velho general orava ao Deus verdadeiro diante deles. Mil pensamentos cruzaram-lhes a mente; não sabiam se primeiro deviam declarar que também eram cristãos, ou relatar a descoberta que fizeram. Amavam o velho como a um pai. e seu amolecido coração derreteu-se uma vez mais ao ver sofrer o veterano. Algumas explanações ligeiras bastaram para revelar a verdade: estavam falando com seu pai! No momento seguinte, os jovens estavam abraçados ao seu pescoço, e o velho comandante apertava ao peito seus filhos valentes.
Deixe a imaginação pintar o quadro que pena alguma pode desenhar. Um momento de alegria como este pesa mais que os anos de negras provações. Todavia, a noite escura e tempestuosa de Plácido já ia passando, e os raios luminosos da recompensa brilhavam sobre ele. Uma luminosidade que, pelo resto de sua vida, seria nublada, exceto por um momento: o momento que o introduziria na claridade da beatitude eterna e imutável - o momento em que sofreria a morte do martírio pela fé em Cristo.

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