ORANDO COM MOISÉS
Em verdade que no texto anterior sobre o Salmo 90 intentávamos escrever comentários a este verso que agora arrolamos. Porém o Espírito Santo fez-nos determo-nos sobre outros versos que, originariamente, pretendíamos tratar apenas em passagem. Chegamos, pois, ao objetivo original, o pedido contido no verso 12: "Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios".
Riquíssimo em significado tal pedido, certamente, porque facilmente se percebe que ele poderia ser traduzido da seguinte forma: "ensina-nos a viver". E Moisés foi extremamente feliz tanto na escolha do pleito, como do destinatário. Nada melhor do que perguntar ao Dono e Autor da vida, como se viver, e em especial, como se viver na presença dEle.
"Contar" tem no caso o sentido de "enumerar", e traz ainda a ideia de referir-se a algo que está em movimento, ou seja, dinâmico. Contamos os anos, meses, dias, horas, etc. Contamos os quilômetros percorridos. As páginas de um livro que se lê. Em todos os exemplos "contar" se refere justamente a medir um movimento (respectivamente do tempo, da viagem ou da leitura). A conclusão não pode ser outra: o reconhecimento de que uma vida de relacionamento espiritual com o Senhor será dinâmica.
Disse Jesus em João cap 5.17: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também". Mais enfático ainda no capítulo 3, verso 8 do mesmo Evangelho: "O vento assopra onde quer, e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito". Não é preciso ser metereologista para se saber que o vento efetivamente não pára.
Gostemos ou não; aceitemos ou não, todos nós estamos contando nossos dias nesta vida terrena. A questão fundamental é para quê os estamos contando? Em que sentido se move nossa existência?
O pedido de Moisés refere-se a um alvo, um objetivo que é almejado pelo movimento de "contagem": "de modo que alcancemos um coração sábio". Sabedoria aqui traduz-se como hokhmah, "substantivo feminino que significa sabedoria, habilidade, experiência e sagacidade" (Bíblia de Estudo - Palavras-chave. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 1.637). Vamos aprofundar isto.
Hollman Illustrated Bible Dictionary (Holman Illustrated Bible Ditctionary. Nashville: Holman Bible Publishers, 2003, p. 1.675-6) apresenta três definições de sabedoria. A primeira, adotada por muitos, simplesmente a arte de aprender como a ter sucesso na vida. Nesta, o conceito mais se aproxima da noção de sagacidade (esperteza, astúcia, sutileza, malícia) ou habilidade antes referidos. Num segundo momento sabedoria é conceituada como o estudo filosófico da essência da vida. Talvez aqui possa ser assimilada à experiência, entendida como o conhecimento avançado adquirido a partir de vivências sucessivas.
Uma palavra adicional deve ser dita sobre esta ideia de sabedoria como astúcia, isto é, ter o maior sucesso possível pelo caminho mais curto, ou seja, pelo melhor atalho. Na segunda tentação de Cristo, Satanás ofereceu-lhe todos os reinos do mundo (Lc 4.5-6) os quais o haviam sido dados (o que era verdade). O objetivo da missão salvífica de Jesus era exatamente a remissão da humanidade e do mundo, isto é, seu resgate de volta a Deus (Ap 5.9 destaca a "compra" da humanidade, o que também Pedro menciona em sua primeira carta, cap 1, verso 18).
Assim, o que fora oferecido pelo inimigo era exatamente o objetivo da missão de Jesus, o resultado por Ele visado. O problema era o meio que fora proposto: prostrar-se a adorar ao diabo (Lc 4.7), em menoscabo ao primeiro mandamento. Frequentemente o problema com a sagacidade não é o resultado pretendido, mas o meio antibíblico proposto. Exemplificando: querer ascender profissionalmente é bom, e nada tem de pecaminoso, agora intentar obter uma promoção forjando uma calúnia contra um colega é condenável diante de Deus.
Já disse Walter Henrichsen: "Nuestros apetitos y deseos innatos no son malos en sí mismos, sino que son creados por Dios. Vienen a ser malos cuando buscamos satisfacerlos o cumplirlos de una forma antibíblica" (El discípulo se hace no nace. Miami: Editorial Patmos, 2014, p. 38).
Jesus, por isto, recusou a proposta satânica preferindo o martírio da cruz, isto é, o "meio" de Deus para alcançar o resultado divino. Não por outra razão Paulo qualifica a Cristo não como um homem sábio, embora Ele o fosse, mas como a própria personificação da sabedoria de Deus (1 Co 1.24).
O terceiro sentido, entretanto, é aquele que nos há de prender: a verdadeira sabedoria é espiritual, pois que a existência é mais do que viver de acordo com um método que proporcione apenas recompensas materiais e terrenas. É neste sentido que se fala em sabedoria como em Pv 1.7: "O temor do Senhor é o princípio da ciência..."; e Jó 28.28: "Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é a inteligência". Evidente que a ideia de "temor" aqui não se equipara ao medo, até porque o amor não se aperfeiçoa onde há medo, e sabemos que Deus é amor. "Temor" certamente que tem o sentido de reconhecer a soberania de um Ser superior, Criador de todas as coisas e que as sustenta com Sua destra, estabelecendo as regras pelas quais elas hão de funcionar.
Veja o exemplo já até mencionado neste texto, o da dimensão "tempo". Deus nos fez atrelados à ela, embora Ele não o esteja. Por mais sagaz, hábil ou astuto que alguém seja, jamais poderia enganar o tempo ou manipulá-lo. Não podemos amar o tempo porque ao contrário de Deus, ele não é um ser, mas é preciso reconhecê-lo como um limite. Assim, ignorar a soberania de Deus seria tão tolo como supor-se capaz de brincar com o tempo, avançando-o ou retrocedendo-o a seu bel prazer.
Assim que o primeiro passo para se obter a verdadeira sabedoria, a espiritual, é conscientizar-se de Deus como um Ser supremo e soberano. Não por outra razão diz o Salmo 53.1: "Disse o néscio no seu coração: Não há Deus".
Interessante é perceber que atualmente a própria Psicologia tem ressaltado a insuficiência da capacidade intelectual para determinar o êxito de vida. Evidente que nunca falariam os estudiosos de dito campo em "sabedoria espiritual", em especial devido ao ranço que em geral possuem em associar espiritualidade e religiosidade, e definirem a esta como uma prisão deformadora e deturpadora da essência do ser humano.
Mas é sintomático que admitam que o coeficiente intelectual representa apenas 20% dos fatores que determinam o êxito pessoal, destacando que os 80% restante são compostos por outras variáveis, uma delas, que mais nos interessa, a chamada inteligência emocional. Esta é sintetizada pela capacidade de motivar-se; de perseverar no empenho apesar das frustrações; controlar os impulsos; diferir as gratificações; regular os próprios estados de ânimo; controlar a angústia; empatizar-se e confiar nos demais (GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional in Leader Summaries, consulta em 11/07/2015).
Destaca-se a importância da inteligência intrapessoal, isto é, a capacidade de identificar e entender as próprias emoções, como um dos fatores fundamentais na tomada das decisões, desde as mais corriqueiras até as mais relevantes. Decisões equivocadas em aspectos como escolha do cônjuge; posto de trabalho; e outras do gênero decorrem exatamente da falta de autoconhecimento (GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional in Leader Summaries, consulta em 11/07/2015).
Porque não associar isto que a Psicologia chama inteligência emocional, com aquilo que identificamos como sabedoria espiritual? Certamente que há fundamento bíblico para tanto. Indagou Jesus em Mc 8.36: "Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?"
A sabedoria que permite ao homem "ganhar o mundo inteiro" corresponde à astúcia ou sagacidade. O homem capaz de ganhar o mundo todo é dotado de alto grau de inteligência cognitiva; mas se perde sua alma denota pobre inteligência ou sabedoria espiritual. No texto citado Jesus apresenta exatamente este contraste: de que adianta aprender a ter sucesso na vida (aquilo que definimos como astúcia ou esperteza, no primeiro sentido dado à sabedoria linhas atrás), se se perde a alma, isto é, se não há inteligência espiritual (o terceiro sentido dado à sabedoria nas linhas passadas)?
Notemos alguns ensinamentos de Jesus: i) encolerizar-se com o seu irmão equivale ao homicídio (Mt 5.21-22); ii) atentar a uma mulher para a cobiçar equivale ao adultério (Mt 5.27-28); iii) dar esmolas para ser "glorificado" pelos homens não tem valor diante de Deus (Mt 6.1-2); iv) orar publicamente para ser visto pelos homens não conquista os ouvidos de Deus (Mt 6.5-6); v) jejuar desfigurando a própria imagem para ser visto pelos homens não tem aceitação diante de Deus (Mt 6.16-18).
Embora os ensinamentos pareçam um tanto quanto diversos, em verdade contém todos, por trás de si, um único princípio: para Deus os sentimentos valem mais do que a atitude. Não por outra razão é que Deus não despreza um coração quebrantado e contrito (Sl 51.17). Não por outro motivo, igualmente, Davi era um homem segundo o coração de Deus, como já destacado no primeiro texto sobre este Salmo 90: Davi não tinha sempre uma atitude correta e justa, mas seus sentimentos diante de Deus eram sempre de puro quebrantamento e submissão.
Aqui encontramos exatamente aquele elemento central à inteligência emocional, que temos assimilado à sabedoria espiritual: a importância de identificarmos e entendermos nossas emoções e sentimentos. Quando cotejamos isto com o princípio bíblico retro enunciado, chegamos a um postulado muito valoroso: o primeiro passo para agradar a Deus e ser aquilo que Ele projeta é conhecer-se a si mesmo, entender as próprias emoções. A propósito, o momento marcante no chamado de Isaías, quando ele deixa a frieza da religião para cumprir a missão de um dos ministérios proféticos mais frutíferos da Bíblia passa pela percepção de quem ele e a raça humana eram diante de Deus: um homem de lábios impuros no meio de um povo de impuros lábios (Is 6).
Outros aspectos da chamada inteligência emocional são abordados pela Bíblia. Falou-se em "controlar a angústia", ora, veja a este respeito a declaração de Paulo: "Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desanimados. Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos" (2 Co 4.8-9). Ainda, "controlar os próprios impulsos", Paulo admoestou aos romanos a que andassem no Espírito, e não na carne, porque a inclinação da carne (leia-se: os impulsos puramente humanos) é morte (Rm 8.9). E por fim, qual a melhor forma de empatizar-se com o semelhante e nele confiar, senão amando-o como a si mesmo? O segundo mandamento.
Assim, é fácil concluir que a sabedoria espiritual encampa aquilo que se tem denominado inteligência emocional. Porém a sabedoria espiritual não se restringe à inteligência emocional. Vai além. Há um fator fundamental que certamente a Psicologia, mesmo que não ignorasse, nunca admitiria como elemento transformador da natureza humana: o amor de Deus.
Notamos facilmente que há momentos em que simplesmente reconhecer ou identificar um sentimento não será suficiente. Entender nossas emoções nem sempre significa emendá-las. E há sentimentos que se não forem corrigidos, nos impedem de crescermos espiritualmente. Não queremos sentir raiva, mas sentimos. Queremos deixar a mágoa no passado, mas não conseguimos perdoar. Tentamos insuflar nosso ego para nos vermos livres do complexo de inferioridade, mas retornamos a ele. Os exemplos seriam múltiplos. Paulo experimentou esse conflito dissociativo entre a vontade e o sentimento, o ideal e o real, quando se queixou que o bem que almejava fazer, não fazia, e o mal que não queria, este causava (Rm 7.19).
Em 2 Co 5.14 o apóstolo Paulo afirma que "o amor de Deus nos constrange". Necessário é anotar que a palavra grega traduzida no texto como "constranger" é sunechó, que tem um significado particularmente diferente do que costumamos entender por constrangimento. De fato, esta palavra a nós chega como sinônimo de incomodar, forçar ou pressionar. Porém sunechó significa pressionar ou apertar para manter inteiro, unido, um todo, a algo divisível ou quebrável em partes.
A melhor imagem para ilustrar o significado da dita palavra é a de uma tala. A tala é um suporte aplicado geralmente com o gesso para manter a posição correta de fragmentos de ossos fraturados, para que a quebradura se emende. O amor de Deus é tala para nossos sentimentos quebrados. O salmista pediu por esta tala quando orou a Deus: "Sonda-me, ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me, e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim algum caminho mau, e guia-me pelo caminho eterno" (Sl 139.23-24).
Logo, a tradução exata de 2 Co 5.14 é que o amor de Deus nos emenda e nos mantém inteiros, quando nossos sentimentos nos querem esmigalhar. O amor de Deus cura o interior e o transforma num único sentido: tornar-nos a imagem do Pai, pois que nada mais natural para um filho que trazer as características paternas, e o que nos torna filhos, é o amor do Pai. Neste sentido Paulo já havia dito na mesma carta, verso 18 do capítulo 3: "Mas todos nós, com rosto descoberto, refletindo como um espelho a glória do Senhor, somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor".
Em conclusão, podemos unir alguns pontos que foram realçadas para afirmar que "contar os dias de modo a alcançar um coração sábio" é contá-los "de glória em glória". É utilizar como unidade de medida as manifestações da glória de Deus em nossas vidas. Que contemos assim nosso tempo nesta vida, e queira o Senhor que assim o medindo, percamos a conta!
Soli Deo Gloria!

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