POR QUE CAEM OS VALENTES – PASTOR JOSÉ GONÇALVES
"A tua glória, ó Israel, foi morta sobre os teus altos! Como caí-ram os valentes! [...] Como caíram os valentes no meio da peleja! Jônatas sobre os montes foi morto! [...] Como caíram os valentes, e pereceram as armas de guerra!" (2 Sm 1.19-27, ARA - grifos do autor)
Como caíram os valentes! é o lamento de Davi. Acredito que essa lamentação do até então futuro monarca de Israel, pela morte de Saul e Jônatas no campo de batalha, identifica-se com cada um de nós em determinadas situações da vida. Quem nunca experimen¬tou esse sentimento de perda? Falando em termos ministeriais, quem nunca chorou a "queda" de um ministro do evangelho? Quem nunca sentiu um vazio, quando um pregador a quem devo¬távamos uma grande admiração e respeito foi tirado de cena?
Um Ministério em Jogo
Há anos, em um Congresso de Jovens da União de Mocidade de meu estado, vivi de forma intensa esse "lamento de Davi".
A igreja tinha se preparado para esse dia. O trabalho de marketing também havia sido bem feito pelos organizadores do evento; a mídia dera ampla cobertura àquele que seria mais um grande Congresso Metropolitano da União de Mocidade de
Teresina. Milhares de pessoas costumavam lotar o "Pavilhão", um local espaçoso destinado a feiras e eventos.
O tempo gasto para percorrer os 42 km, distância que separa a cidade de Altos da capital Teresina, foi o suficiente para encon¬trar um auditório superlotado. A minha mente, quase que incons¬ciente, dirigiu-me à plataforma onde estava situado o púlpito. Os meus olhos procuravam o conferencista. Aquele jovem pastor era muito requisitado, pelo que não era fácil conseguir agendá-lo. Eu queria saber se de fato ele teria vindo, conforme fora anun¬ciado. Fiquei aliviado, viera e estava sentado na primeira fila de cadeiras. A sua grande eloqüências unida à sua poderosa voz pro¬fética, fez dele uma espécie de ícone entre a juventude pentecostal.
Convidado a ocupar um lugar no púlpito, logo percebeu a minha chegada e convidou-me a ocupar uma cadeira ao lado da sua. A nossa amizade, fruto de longos anos, nos dava a liberdade de desfrutarmos uma comunhão sólida. Mas ao trocar as primeiras palavras, percebi que ele queria partilhar algo comigo, mas parecia estar "entalado". Foi então que percebi que havia algu¬ma coisa muito além do corriqueiro. Com uma visível dificulda¬de de se expressar, ele pegou um pedaço de papel, escreveu al¬gumas palavras e entregou-me. No pequeno texto estava escrito:
José, estou passando por um grande conflito. É tão intenso que o meu ministério está em jogo.
Confesso que naquele momento essas palavras cortaram meu coração. O culto seguia seu curso normal: cantores e mais canto¬res se revezavam no púlpito, mas para mim acabara ali. O ecoar daquelas palavras impediam-me de ouvir qualquer outro som. A velocidade da luz, eu tentava racionalizar: "Não deve ser nada grave". Tentava a todo custo acalmar a minha mente, afinal um ministério tão belo e maravilhoso como o daquele irmão não po-deria, sob hipótese alguma, ser danificado.
Não vou entrar em detalhes sobre o desfecho desta história, mas estou consciente de que fatos como este acontece com mais freqüên¬cia do que imaginamos. Como pregador itinerante, por onde anda¬va, ouvia muitos relatos parecidos com esse. Outras vezes, recebia telefonemas de colegas de ministério onde as suas falas começavam assim: "Você já sabia que fulano de tal caiu?" Às vezes, a informação surgia velada, geralmente as perguntas originavam-se dessa outra forma: "O que você está sabendo acerca de beltrano?" Quando res¬pondia: "Nada", o outro completava: "Ele caiu".
Ao escrever sobre esse assunto, faço com temor e tremor, afi-nal também sou um ministro do evangelho. Estou no mesmo bar¬co, corro os mesmos riscos. Procurei fugir do farisaísmo, caracte¬rística de quem só sabe criticar. Por outro lado, também não tive a intenção de "abrir" feridas já cicatrizadas em alguns valentes, até porque acredito que aqueles que o Senhor restaurou, estão de fato restaurados. O meu propósito é levar-nos a uma reflexão acerca do "ofício do ministro evangélico"; todavia não apenas de suas glórias, mas principalmente dos perigos que o cercam.
Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude!

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