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MINISTÉRIO EM DEFESA DA FÉ APOSTÓLICA


PASTOR SERGIO LOURENÇO JUNIOR - REGISTRO CONSELHO DE PASTORES - CPESP - 2419

VIVENDO COM PROPÓSITOS A RESPOSTA CRISTÃ PARA O SENTIDO DA VIDA - PASTOR ED RENÉ KIVITZ

Por uma só coisa anseio: aprender o que se esconde atrás dos fenómenos; desvendar o mistério que me dá a vida e a morle; saber se uma presença invisível e imota se esconde além dojluxo visível e incessante do mundo. Pergunto e torno a perguntar, golpeando o caos: quem nos planta nessa terra sem nos pedir licença ? Quem nos arranca da terra sem, nos pedir licença ? Sou uma criatura fraca e efémera, feita de barro e sonhos. Mas sinto em mim o turbílhonar de todas as forças do Universo. Antes de ser despedaçado, quero ter um instante para abrir os olhos e ver. Minha vida não tem outro objetivo. Quero achar uma razão de viver, de suportar o terrível espetáculo diário da doença, da fealdade, da injustiça e da morte. Vim de um lugar obscuro, o Útero; vou para outro lugar obscuro, a Sepultura. Uma força me atira para fora do abismo negro; outra força me impele irresistivel–mente para dentro dele. Nikos Kazantizakis Acordei, certa manhã, impregnado da sensação de que a saga humana tem um andar de cima. E um andar de baixo. Qualquer pessoa que se sinta à vontade neste mundo, tal como se apresenta agora, não o percebeu adequadamente. Quem convive passivamente com as causas aparente¬mente aleatórias que distinguem felizes de infelizes, no mínimo ainda não teve coragem de levantar a cortina para ver o que se passa do outro lado do mundo visível. O mundo de contrastes remete–nos inevitavelmente à percepção de que a experiência existencial humana explica–se melhor pela metafísica. Quanto a mim, o piso térreo nunca me atraiu. As manchetes dos jornais jamais me satisfizeram, no sentido de explicar por que exatamente aque¬les 117 passageiros morreram no acidente de avião ou por que justamente aquela mulher ficou viúva tão cedo. Por que alguém se torna bom samaritano e outro, monstro urbano? A sociologia, a psicologia, a antro¬pologia e tantas outras logias jamais explicaram por que foi justamente o fulano, e não eu, quem nasceu na favela, tornou–se ajudante de traficante e morreu assassinado aos 17 anos numa briga de bar. Sempre desconfiei que, por trás da trama humana no mundo visível, há fatores determinantes no mundo invisível. Já não me recordo quando foi que adquiri a convicção de que os fatores determinantes das biografias estão no mundo espiritual, não no plano histórico. Por essas razões, a trivialidade da vivência dos mortais sempre me entediou. "Crescer e mul¬tiplicar" não resume satisfatoriamente a razão pela qual existo. Conside¬ro blasfemo aquele que chama de vida apenas a sucessão de atividades inerentes à sobrevivência: comer, beber, dormir, procriar, trabalhar e ter prazer eventual. Jamais passei um dia sem buscar discernir e estabelecer contato com as forças e personalidades que interagem e que se digladiam nos planos invisíveis, determinando a trama histórica que a maioria ingénua pensa comandar. No meu mundo cabem (e são imprescindíveis para que esse mundo faça sentido) Deus, o diabo, anjos e demónios. E os humanos. Todos os humanos. Sou obcecado por acessar esses lugares outros, essa dimensão espiritual, para transitar entre o espírito e o Espírito, de modo a poder cooperar com a causa em vez de navegar ao sabor dos efeitos. Por conta disso, minhas noites adultas sempre foram maldormidas, passadas entre os cantos lúgubres dos labirintos da reflexão e as ilumina¬das trilhas da oração, nas pistas deixadas pelos escritos sagrados. Passo madrugadas em claro. Fico deprimido durante dias após notícias catastró¬ficas. Leio as Escrituras Sagradas com avidez para discernir a opinião de Deus sobre meu mundo, de dentro e de fora. Suplico socorro aos céus e busco luz para o entendimento na expectativa de ter o que dizer para as pessoas que amo. Peço a Deus que mostre sua cara para mim e através de mim. Já não me basta crer e esperar. Anseio ver e interferir. – Minha biografia possui páginas com histórias de violência e de assas¬sinatos; tráfico de drogas e jogo do bicho; adultérios, estupros e abuso sexual infantil; miséria e desespero suicida; família e favela; igreja e ami¬gos de rua; amizades, amores e orfandade. O barulho dos tiroteios pela vizinhança, que me enchiam de pavor durante a noite, ainda faz eco em alguns recantos de minhas memórias emocionais. Naquele tempo, eu era o primeiro a me recolher para dormir. O movimento da casa e as luzes acesas me traziam uma agradável sensação de segurança em razão de saber que alguém estava acordado vigiando portas e janelas contra invasões indesejadas e balas perdidas. As vezes em que, por alguma razão, eu ficava por último, a responsabilidade de percorrer a casa para apagar as luzes e verificar as trancas recaía como um fardo insuportável sobre meus om¬bros. Cada barulho do quintal podia significar perigo real e imediato. Aquelas eram as noites mais longas. Ainda tenho o registro da manhã em que acordei com policiais trocando tiros com traficantes na porta de mi¬nha casa, enquanto avisavam os moradores quanto à possibilidade de um bandido qualquer estar escondido no armário ou na casa do cachorro. Algumas vezes, passei para o outro lado da calçada, a caminho da escola, evitando o constrangimento de ter de pular um cadáver coberto de jornal nas esquinas próximas de casa. Não poucas vezes, ouvi de meninas que faltaram a aula, porque foram estupradas na noite anterior. Vivi boa parte de minha adolescência envolto em maresia, do mar e da maconha, que emoldurava as maravilhosas tardes de bate–bola na areia da praia do José Menino, em Santos. A geometria dos corredores, salões e armários do orfanato que me abrigou ainda me é peculiar. As cores mais vivas, entretanto, estão mesmo sobre os degraus da escada da frente, onde eu me sentava como que foto¬grafando cada sorriso de criança chamada pelo nome com a chegada da mãe ao final do dia. Todas as crianças partiam, e meus olhos ficavam fixos no chão xadrez do hall até minha avó me encaminhar carinhosamente para trás das imensas portas que nos protegeriam abrigados, somente os dois, naquela imensidão. Sobre pessoas desorganizadas existencialmente tenho boas lembranças. E dolorosas experiências. Os rodopios das mulheres ao vento das pombagiras encontram lugar na minha tela biográfica. As correrias de setembro, em busca de doces distribuídos no "dia de Cosme e Damião", outrora inocentes brincadeiras explicadas pelo apetite juvenil por glicose esculpida, agora se revelam expressões de devoção espiritual. As velas, despachos, garrafas de bebi¬das fortes nas esquinas, os inúmeros amuletos e colares coloridos que meus amigos exibiam e o barulho dos atabaques que marcavam o ritmo das noites de sexta–feira encaixam–se como correntes da escravidão, que amarravam gente com vida completamente embaraçada e marcada pela podridão moral. Jamais me esqueci da noite em que ficamos, os primos, olhando, da sacada do apartamento de frente para o mar, minha tia ro¬dopiando na praia levada, de um lado para outro, por espíritos que chamo de demónios. O mundo cor–de–rosa não durou muito para mim. Desde meus oito anos de idade, convivo com as mais diversas histórias de mazelas pessoais e familiares. Não me lembro de ter acreditado em Papai Noel. Cresci cedo. Os miseráveis moradores da favela e as pobres crianças que meus filhos vêem apenas da janela do carro nos grandes cruzamentos da cidade de São Paulo eram os meninos com quem eu jogava bola e trocava pontapés nas brigas de rua. A favela ficava ao lado. Mas o cristianismo fala de outro lugar, de outro estado de ser, de outra possibilidade de relação cora Deus, o Criador amoroso que não desistiu de sua criação. Minha biografia também. Hoje entendo quando Deus me olha nos olhos e sussurra repetidas vezes: "Com amor eterno eu te amei... com benignidade te atraí" (Jeremias 31:3, ARA). Esse amor eterno é a única explicação para que eu tenha sido preservado em meio a tantas idas e vindas. Minha peregrinação teve início na eternidade. Foi sempre protegida pela incansável luta de minha mãe que, viúva aos 22 anos de idade, colo¬cou sob suas asas duas crianças e correu incansavelmente atrás do pão de cada dia. Ninguém me tira da cabeça que o Milton Nascimento escreveu a canção para ela. Ela, que tem "um dom, uma certa magia, uma força que nos alerta; uma mulher que merece viver e amar como outra qualquer do planeta". Ela que é "a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar, e não vive, apenas aguenta". Ela que tem "força, raça, gana, manha, graça, e sonho, e mistura a dor e a alegria". Ela que traz "na pele essa marca, e possui a estranha mania de ter fé na vida". Minha mãe, que hoje se parece muito com a outra Maria, pois o Filho de Deus também fez morada em seu coração. Depois de minha mãe, minha história passou por um orfanato evangélico e foi regada por dezenas de histórias bíblicas que minha avó me contava. Histórias que fincaram raízes por causa das cente¬nas de vezes em que contemplei aquela mulher solitária, também viúva em sua juventude, ajoelhada em oração. Ao lado, corriam alguns homens especiais, que me amaram com todas as forças de sua alma e fizeram o possível e o impossível para suprir a minha carência de pai. Aos onze anos, tive meu nome incluído no rol de membros de uma comunidade cristã evangélica, quando minha peregrinação espiritual foi molhada nas águas batismais de uma Igreja Batista fincada na entrada do solo árido da favela mais violenta da cidade do Rio de Janeiro – Acari –em maio de 1975. Desde então, quando oficializei minha entrada nos horizontes do cor¬po místico de Cristo, passei a ser acompanhado por uma nuvem do céu: anjos, amigos, mentores, irmãos. Uma nuvem do céu que, depois de longa caminhada e de muita poeira nos pés e na alma, fez–me assentar à mesa em família, com minha mulher e meus filhos – a ante–sala do céu, o paraíso numa Terra marcada pelo caos. Assim observo minha trajetória. Essa é a leitura que faço de tantas "coincidências" que me fizeram ser quem sou. As perguntas que sempre povoaram meus recônditos mais íntimos encontraram calmaria no cris¬tianismo. Especialmente na compreensão judaico–cristã, que afirma que vivemos num parêntese da história. Um parêntese entre o paraíso e o céu. Aprendi que viver é peregrinar. Uma peregrinação visível cheia de interações invisíveis. Viver é transitar entre um lugar e outro, um estado de ser e outro, uma condição humana e outra, um mundo e outro. Fui criado na estrada. Cresci na rua. Morei em muitas casas e frequentei mui-tas escolas. Substituí amigos e me adaptei diversas vezes. Ou, quem sabe, não me adaptei até hoje. Pois continuo peregrino. Não sinto que cheguei. Talvez esse senso de transitoriedade que me foi inculcado na infân¬cia explique minha disposição para experimentar e minha vontade de descobrir. Minha biografia é uma história de estar a caminho, e justa¬mente assim, ou por isso mesmo, enxergo a experiência espiritual como uma peregrinação. Vejo a existência humana como uma peregrinação rumo às verdadei¬ras dimensões da vida. Uma peregrinação em companhia de pares que nos são acrescentados ao longo da trilha. Ninguém peregrina sozinho. Caminha, inclusive, ao lado de companhei¬ros invisíveis aos olhos humanos. Quanto maior a capacidade de discernir e de escolher companhias, maior a possibilidade de êxito do peregrino. Também é verdade que ninguém peregrina apenas pelas estradas do aqui e agora, mas também, e principalmente, pelas regiões do ali e além. Quanto mais o peregrino for capaz de discernir e de interferir no outro mundo, maior a possibilidade de êxito neste mundo. A perspectiva da peregrinação solidária é a melhor leitura que consigo fazer da experiência espiritual judaico–cristã. O cristão é um peregrino. O cristão é um peregrino que caminha em comunhão. O cristianismo é a trilha da intimidade com Deus e com o próximo. Cristia¬nismo é conexão. A partir de Adão, o primeiro ser humano, protótipo de todos nós, a experiência de peregrinação é compartilhada com toda a humanidade. Essa peregrinação não é o caminho da volta ao paraíso nem a elabora¬ção psíquico–emocional daqueles para quem a vida não transcorreu por vias consideradas normais. Não se trata de fuga para o céu nem da busca de equilíbrio interior–intimista. A peregrinação não é apenas psíquica e emocional, mas também essencialmente espiritual. Não é necessária para uns poucos traumatizados por experiências circuns¬tanciais, mas sim uma tarefa imprescindível a todo ser humano rumo ao máximo de suas possibilidades como ser criado à imagem e semelhança de Deus. O ser humano é um peregrino, e a tradição de espiritualidade judai–co–cristã é o melhor mapa que encontrei. Viver é caminhar. A vida faz sentido quando conseguimos extrair o sen¬tido de cada momento, cada kairós*, cada dia. O sentido da vida está em viver. Mas não um viver qualquer. Um viver qualquer é mera existência, suceder de dias. Há um jeito de viver, e esse jeito de viver está embutido em cada ser humano em duas dimensões. A pri¬meira é universal, a imago Dei, matriz divina da qual todos somos herdeiros. A segunda é singular, pois cada ser humano é um origi¬nal. A capacidade de viver um momento de cada vez, expressando a imago Dei por meio de minha singularidade, é o que chamo vi¬ver com propósito. Assim, espero encontrar a felicidade ali e além, mas também aqui e agora.

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