A IGREJA EXIGE UMA REFORMA - A HISTÓRIA DA IGREJA - DUNCAN REILY
Os credos mais usados no mundo cristão são o Niceno e o Apostólico. Ambos contêm um artigo sobre a nossa fé na Igreja. O credo apostólico, na sua forma mais primitiva, diz apenas: "Creio na Santa Igreja" (Nós, Metodistas, afirmamos: "Creio na Santa Igreja de Cristo, na Comunhão dos Santos"). O credo chamado Niceno, aceito ainda pela Igreja Ortodoxa, diz: "Cremos na Igreja una, santa, católica e apostólica". Em ambos os casos, a Igreja é objeto de nossa fé. Ela é tida como algo mais do que um mero ajuntamento de homens, mulheres, jovens e crianças. Ainda que tenhamos dificuldade de definir o que pensamos, cremos que há um elemento divino na Igreja. Falamos em Igreja como "Corpo de Cristo" e "Povo de Deus", o que deixa clara a dimensão sobre-humana da Igreja.
Lemos no Evangelho que é Jesus quem edifica a Igreja e que nem as portas do inferno hão de prevalecer sobre ela (Mt 16.18). Na segunda lição desse caderno aventuramos a definição de Pentecoste como a renovação de aliança entre Deus e seu povo, sem as velhas limitações nacionais e raciais, entendendo "povo" como Igreja (cf. I Pe 2.9-10).
Mas o Novo Testamento deixa muito evidente que o elemento divino nem sempre domina. Paulo costuma endereçar suas epístolas aos santos em determinado lugar (Rm 1.7; I Co 1.2; II Co 1.1; Ef 1.1; Fp 1.1; Gl 1.1, etc), mas isto não o torna cego aos deslizes destes "santos".
Na sua primeira carta aos Coríntios, já no primeiro capítulo, ele condena suas dissensões e espírito sectário (I Co 1.2) e ele igualmente condena a impureza sexual (I Co 5.1), o litígio entre os irmãos (I Co 6.1 ss), desordem e desamor na Ceia do Senhor (I Co 11.17-22). Na sua Epístola aos Gálatas ele chama Cefas (Pedro) de "coluna da Igreja" (Gl 2.8) e logo em seguida conta que teve que resistir Pedro na cara, por causa da sua quebra de comunhão com os cristãos gentios (Gl 2.11-14). Um exame das Sete Igrejas da Ásia (caps. 2 e 3 de Apocalipse) logo revela que, ao lado das qualidades, todas as Sete, menos as de Esmirna e de Filadélfia, também apresentam graves defeitos e falhas. Tudo isso significa que nem mesmo nos tempos apostólicos a Igreja era tão perfeita como gostamos de pensar.
Ao longo da história, a Igreja tem que estar alerta para ouvir palavras como aquelas proferidas à Igreja de Éfeso: "... deixaste o teu primeiro amor. Lembra-te, pois, donde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras" (Ap 2.4-5).
Uma das coisas animadoras na história da Igreja é exatamente que ela tem freqüentemente atendido à voz do seu Senhor em profundo arrependimento e assim tem experimentado profunda renovação. Aliás, é provável que em cada época de profunda decadência tenha havido movimento paralelo de renovação.
Alguns destes momentos poderão ser mencionados com proveito. A Igreja sofreu muito nas mãos dos imperadores perseguidores dos primeiros séculos. Já nos referimos à feroz perseguição começada por Décio e que durou aproximadamente dez anos. Mas, depois, a Igreja experimentou 40 anos de paz, durante o que igrejas cristãs (templos) foram construídas e em que muitos aderiram à igreja, nem sempre com a devida preparação catequética. Ser cristão (tornar-se membro da Igreja) não era uma coisa especialmente heróica. O resultado foi que a qualidade geral da vida e devoção dos cristãos baixou sensivelmente. Frente a este cristianismo medíocre, surge um Antão e um Pacômio que aceitam o desafio de um cristianismo heróico, exigente — aceitam o desafio de Jesus aojovem rico, vendem tudo o que têm e, como eremita e monge, procuram dedicar-se integralmente a Cristo!
Mas o próprio sistema monástico*, que visa chamar homens e mulheres para uma devoção total a Cristo, carece de renovação de tempos em tempos — e no meio do sistema surgem reformas de longo alcance, como o de Cluny e o de Cister, que acabam não apenas trazendo nova vida ao mosteiro e convento mas para a Igreja toda (veja lição número XI dessa caderno sobre o Poder Eclesiástico e o Poder Temporal, ou seja, a relação entre a Igreja e o Estado).
Mas nós Protestantes quando pensamos na Reforma, pensamos imediatamente em Lutero e na Reforma Protestante do Século XVI. Certamente há justiça nessa maneira de pensar. Mas antes de chegarmos lá, vamos considerar um bom período da história, que é geralmente considerada o período da Pré-Reforma.
Já vimos em outras lições como o Bispo de Roma, ou seja, o Papa, reclamava para si autoridade superior à do Imperador. Mais importante é o fato de que a Igreja — Povo de Deus — vinha sendo substituída pela Igreja Papal ao ponto de "Igreja" praticamente significar "hierarquia" ou simplesmente "Papa". Este fato em si já é significativo, mas ele passava quase despercebido no século XIV, que é a época que desejamos focalizar primeiro.
O fim do século XIII e começo do XIV foram marcados por uma briga entre o rei Filipe, o Belo, da França e o Papa Bonifácio VIII, durante o que o Papa emitiu sua famosa bula* UNAM SANCTAM, em 1302. Nesta bula*, Bonifácio reafirmou a superioridade da Igreja ao Estado e concluiu: "declaramos, afirmamos, definimos e prenunciamos de que é absolutamente necessário para a salvação de cada criatura humana que ela (o rei, o estado, a monarquia, etc) esteja sujeita ao pontífice romano". Isto marca o auge das pretensões papais na Idade Média.
Mas o que aconteceu depois foi como um golpe às pretensões e ao prestígio papal. Não apenas o Rei da França reagiu e conseguiu prender o Papa Bonifácio, mas não muito depois o papado passou a estar debaixo do domínio francês por um período de quase 70 anos (1309-1377), o período chamado de "o Cativeiro Babilônico do Papado". Os cardeais escolheram Bertrand (Clemente V), um francês, em 1305, como o novo papa. Dominado por Filipe, ele transferiu o papado de Roma a Avinhão, encravado em território francês, e lá permaneceu a sede papal por quase 70 anos. Para se manterem, os papas de Avinhão inventaram uma série de novos impostos e taxas, em geral dando a impressão de avareza, isto num período quando o ideal da Igreja era de pobreza apostólica!
Não é de se admirar que pensadores como João Wiclif citavam como modelo do papado homens simples e pobres como o Apóstolo Pedro, uma óbvia comparação com a pompa e riqueza dos chefes da Igreja em Avinhão. Também é compreensível que, em plena Guerra dos Cem Anos (entre Inglaterra e França), Wiclif, um patriótico inglês, tivesse pouca simpatia para com o papado francês! Sim, o papa que, em Roma, simbolizava a Igreja universal, agora parecia muito mais francês que símbolo da Igreja como um todo.
Mas coisas piores seguiram. Finalmente, em 1377, o Papa Gregório XI, sob a insistência de Catarina de Siena, voltou a Roma. Quando Gregório morreu no ano seguinte, o povo italiano insistiu num papa italiano, e os cardeais cederam. Mas o novo papa italiano, Urbano VI, iniciou um programa de reforma tão vigoroso que os cardeais que acabaram de elegê-lo se reuniram novamente e elegeram Cardeal Roberto de Genebra (francês) que, como Clemente VII, retornou a Avinhão. Começara-se o Grande Cisma Papal com um Papa
legalmente eleito em Roma e um outro em Avinhão. Esta situação era desastrosa à Igreja e à Europa cristã. Por exemplo: era necessário estar sujeito ao papa para garantir a salvação
— mas, a qual dos dois?
Depois de três décadas de confusão e prejuízo, os próprios cardeais tomaram a iniciativa de convocar um Concílio Gerai para sanar o cisma. O concílio, reunido em Pisa (1409), depôs os dois papas e elegeu um outro. Mas nenhum dos antigos papas reconheceu a decisão — portanto, de 1409 até o novo Concilio, em Constança (1415), havia três papas, cada um deles reclamando para si a chefia universal e governo da Igreja! Assim, por aproximadamente 40 anos, o papado, que era tido como o símbolo da unidade da Igreja, foi realmente o motivo da sua desunião. Nesta confusão ocasionada pelo Cisma Papal surgiu o grande pregador, nacionalista e campeão dos direitos do povo, João Hus, o qual pelas idéias derivadas de Wiclif sobre Igreja e Papado foi condenado e sentenciado a ser queimado durante o mesmo Concilio que, com a força do Imperador Sigismundo, sanou o Cisma.
Assim, a Igreja passa por 70 anos do envergonhado papado de Avinhão, papas avarentos e subservientes à França, e 40 anos de Cisma Papal. Não apenas pensadores como Wiclif e Hus questionam a validade da Igreja Papal (eles idealizavam uma Igreja que é essencialmente povo, onde leigos também proclamam as boas-novas do Reino) e da tradição (Wiclif e seus colaboradores deram a Bíblia aos ingleses no seu próprio idioma), mas passa a haver um clamor generalizado pela reforma da Igreja. O grito era "Reforma no cabeça (Papa) e membros".
O método tentado foi reforma por meio de Concílios, e alguns resultados houve. Mas, para o desapontamento geral, no fim do século XV e começo do XVI os papas da Renascença* não apresentaram nenhum sinal de renovação! No final do século XV apareceu o espanhol da família Borgia, Alexandre VI, pai e protetor dos notórios Césare e Lucrécia Borgia, e no início do século XVI figuras como o Papa Guerreiro Júlio II.
A Reforma, porém, só viria com Martinho Lutero, a partir de 1517, o que examinaremos na lição seguinte.

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