APROXIMAÇÃO DO PAPA COM A CHINA É “TRAIÇÃO A CRISTO”, DIZ CARDEAL CRÍTICO DO REGIME, LÍDER CATÓLICO ACREDITA QUE FRANCISCO É “INGÊNUO”
São mais de seis décadas de conflitos entre o governo da China e o
Vaticano, por causa da nomeação de sacerdotes. Pequim não aceita que a Santa Sé
faça as escolhas, pois isso interferiria na ‘soberania’. Trata-se de uma forma
velada do partido comunista continuar exercendo o controle das igrejas. A
Associação Católica Patriótica é controlada pelo regime, e responsável por
nomear os bispos no país, que não são reconhecidos pela cúpula da Igreja. Agora,
a sinalização feita por Francisco de uma aproximação está gerando críticas de
quem conhece bem como funciona a repressão chinesa ao cristianismo. O cardeal
Joseph Zen Kiun, bispo emérito de Hong Kong, insiste que uma aproximação entre
as duas partes seria como “trair Jesus Cristo”. Ferrenho crítico do regime na
China continental, o cardeal Zen é um apoiador dos movimentos pró-democracia.
Ele teme que o Papa Francisco ‘ceda’ ao regime comunista. “Talvez o Papa seja
um pouco ingênuo, não tem o conhecimento de quem são os comunistas na China”,
afirmou ao periódico inglês The Guardian. Ouvido pelo Guardian, Francesco Sisci,
jornalista que vive em Pequim e se especializou nas relações entre a China e a
Santa Sé, admitiu que existe uma grande possibilidade de que um “acordo amplo”
seja feito. Quando foi entrevistado por Sisci a última vez, Francisco dizia que
não se devia temer a ascensão econômica e política da China, sublinhando que
“os homens e as civilizações tendem a comunicar”. Para o pontífice: “No mundo
ocidental e na China, todos têm a capacidade e a força de manter o equilíbrio
da paz”. Perseguição não parou: Uma motivação para o Vaticano assinar um acordo
de cooperação e passar a reconhecer os bispos apontados por Pequim seria o
número relativamente pequeno de católicos no país. Há cerca de 10 milhões de
católicos chineses, apenas um décimo do número total de cristãos no país. A
Santa Sé argumenta que, com o acordo proposto, os padres poderiam pregar com
mais facilidade e abrir mais igrejas. Zen acredita que o argumento é falho.
Trata-se de uma “falsa liberdade”, insiste o cardeal de Hong Kong, “É apenas a
impressão de liberdade, não é uma liberdade verdadeira. O povo, mais cedo ou
mais tarde, verá que os bispos são fantoches do governo e não realmente
pastores do rebanho “. Aos 84 anos, o bispo Zen, é conhecido por sua oposição
às tentativas do partido comunista limitar
o papel da Igreja em Hong Kong. “O papa está acostumado com alguns comunistas
que são perseguidos [na América Latina], e talvez não conheça os comunistas que
já mataram centenas de milhares”. Se assinar um acordo com o regime que governa
o país mais populoso da terra, os católicos representados pelo papa estariam
“rendendo-nos, traindo-nos e traindo a Jesus Cristo”. “Os bispos oficiais não
estão realmente pregando o evangelho. Eles estão pregando a obediência à
autoridade comunista”, adverte. Quando persegue os cristãos, o governo chinês
não faz distinção, tanto evangélicos quanto católicos sofrem com o mesmo tipo
de cerceamento de liberdade. Perseguição aumentou: A perseguição contra os
cristãos na China ficou sete vezes maior na última década. De acordo com o último relatório da missão
China Aid, desde 2008 é possível ver um aumento constante nos casos de prisões
de líderes, fechamento e demolições de templos. De fato, as comunidades
religiosas na China vivem o mais intenso ano de perseguição desde a Revolução
Cultural (1966-1976), quando o país passou a adotar o sistema comunista. Nos
tempos de Mao Tsé-tung, o ateísmo foi um dos pilares para o estabelecimento da
República Popular da China. Contudo, sua tentativa de exterminar toda forma de
religião no país fracassou. Ao longo das décadas seguintes, houve uma tentativa
do Estado de assumir o controle das igrejas do país. A questão religiosa passou
para segundo plano, enquanto o país mais populoso do mundo passava por
profundas mudanças sociais e econômicas. Na década de 1970, Pequim anunciou que
desistiria de tentar erradicar a religião organizada. Com a ascensão do
presidente, Xi Jinping, o discurso mudou. Segundo ele mesmo, a “gestão da
religião é, em essência, a gestão das massas”. Atualmente, o país está entre os
que mais perseguem os cristãos no mundo, segundo a missão Portas Abertas.
Estima-se que 90% das cruzes de igrejas consideradas “não oficiais” tenham sido
retiradas à força. O relatório publicado pela China Aid afirma que embora
budistas e muçulmanos sofram represálias, os cristãos estão sendo mais
perseguidos, espancados e torturados do que nunca.

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