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terça-feira, 8 de agosto de 2017

O RETORNO DE ENÉAS, ÍCONE DA EXTREMA-DIREITA E 'HERÓI' DE BOLSONARO JOÃO FELLET

Não estamos falando da movimentação do deputado federal Jair Bolsonaro rumo a 2018, mas sim da candidatura do médico acriano Enéas Carneiro ao Palácio do Planalto, em 1994. Morto em 2007, Enéas concorria pelo pequeno Partido de Reedificação da Ordem Nacional (Prona) e deixou para trás figurões como os governadores Leonel Brizola (PDT) e Orestes Quércia (PMDB). Com 7% dos votos, chegou em terceiro lugar, atrás do petista Luiz Inácio Lula da Silva e do tucano Fernando Henrique Cardoso.Vinte e três anos depois, várias bandeiras de Enéas ressurgem na disputa presidencial - agora encampadas por Bolsonaro, que se diz grande admirador do cardiologista acriano e o considera uma de suas maiores influências na política. O apreço é tanto que, em maio, o deputado e seu filho, Eduardo Bolsonaro, propuseram uma lei para que Enéas seja incluído no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria - lista de personagens que, segundo página do Senado, "protagonizaram momentos marcantes da história do Brasil" e tiveram seus nomes aprovados em votação no Congresso e que conta atualmente com 41 nomes, entre eles Tiradentes, Zumbi dos Palmares, Dom Pedro 1º, Santos Dumont, Chico Mendes, Getúlio Vargas e Heitor Villa-Lobos. "Seu valoroso nacionalismo e sua oposição ao comunismo o qualificam como herói da pátria", justificam pai e filho no Projeto de Lei 7.699. Em outra frente, o Partido Ecológico Nacional (PEN) - pelo qual Bolsonaro deve disputar a Presidência - anunciou que cogita mudar o nome para Prona em homenagem ao político acriano. Bolsonaro costuma dizer que Enéas foi um "homem do futuro" e destacar as posições do médico sobre o nióbio, metal que também ocupa um papel central na plataforma econômica do deputado. O Brasil abriga 98% das reservas conhecidas de nióbio, elemento químico empregado na fabricação de turbinas de avião, tomógrafos e lâmpadas potentes, entre vários outros itens de alta tecnologia. Enéas lamentava que o Brasil exportasse nióbio bruto "a preço de banana", em vez de usá-lo para desenvolver a indústria nacional. Ele dizia que o metal tinha tanto potencial que poderia até lastrear a moeda brasileira. Bolsonaro compartilha do entusiasmo do acriano e defende que o Brasil tenha um "vale do nióbio" - referência ao Vale do Silício, sede de várias das maiores empresas de alta tecnologia dos EUA.O deputado diz que o metal poderia ter peso maior que o agronegócio na economia brasileira - opinião vista como exagerada por especialistas, que, no entanto, reconhecem que o país poderia agregar mais valor ao produto antes de vendê-lo. Outro ponto que une Enéas e Bolsonaro é a crítica à demarcação de áreas indígenas. Em 2005, quando eram colegas na Câmara dos Deputados, os dois viajaram juntos a Roraima, onde 46% das terras são ocupadas por índios. Quem é Rodrigo Maia, o homem na corda bamba entre as posições de aliado e potencial substituto de Temer Na volta, Enéas afirmou no plenário que os indígenas não precisavam de terras, mas de melhores condições materiais. "A terra dada aos índios é suficiente para eles andarem por ali durante 600 anos e sequer chegarem a conhecer toda a região. Tudo isso está altamente programado por um monstruoso poder alienígena [estrangeiro], que tem interesse nas riquíssimas jazidas que estão no subsolo brasileiro." Da mesma forma, Bolsonaro costuma dizer que "onde tem uma terra indígena, tem uma riqueza embaixo dela". Em visita recente a Mato Grosso, afirmou que não haverá "um centímetro quadrado demarcado como terra indígena" se virar presidente. "Grande parte dos índios são brasileiros como nós: ele quer ter energia elétrica, televisão, namorar uma loirinha, ter internet."Enéas Mil Grau As frequentes menções de Bolsonaro a Enéas têm ajudado a popularizar o acriano entre fãs do deputado e grupos de jovens de direita. No canal Enéas Mil Grau no YouTube, um vídeo expõe as "mitadas mais fodas" do cardiologista. Indagado num programa de TV se acreditava em Deus, ele diz que sim, pois não conseguia "entender um universo tão bem feito no nível macrocósmico e microcósmico sem que haja uma mente prodigiosa por trás". Uma montagem então exibe o rosto de Enéas com óculos escuros ao som do rap Turn Down For What. Muitas páginas de fãs de Bolsonaro mostram entrevistas e discursos de Enéas, ressaltando seu parentesco ideológico com o ídolo. Em alguns vídeos, o médico é tratado como um visionário ao criticar o megainvestidor húngaro-americano George Soros na campanha presidencial de 2002.Enéas condenava a participação de Soros na privatização da mineradora Vale (o bilionário comprou 1,25% das ações da empresa) e o criticava por financiar organizações pró-legalização de drogas. Em 2010, o investidor escreveu um artigo no Wall Street Journal em que defendeu substituir políticas de repressão às drogas por campanhas de educação. Hoje, Soros é um dos maiores alvos de grupos conservadores brasileiros e estrangeiros, vilanizado por financiar causas associadas à esquerda mundo afora, como igualdade de gênero, direitos LGBT e combate ao racismo.Em outro vídeo, um seguidor de Bolsonaro compara o tratamento recebido pelo deputado ao dado ao acriano. "Estão fazendo com Bolsonaro o mesmo que fizeram com Enéas - desprezado, humilhado e chamado até de louco por muitos." Afilhada política de Enéas, a médica sergipana Havanir Nimtz, eleita vereadora e deputada estadual em São Paulo, celebra o ressurgimento do mentor. "Seus ensinamentos estão mostrando à população brasileira, via YouTube, Facebook e outros meios de comunicação, que ele estava certo, e que a solução para o Brasil é administrá-lo com força, capacidade e princípios familiares e religiosos", ela diz em nota à BBC Brasil. Hoje sem cargo político e filiada ao Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB), Havanir não quis comentar a ascensão de Bolsonaro. Críticas à ditadura Apesar das convergências entre Enéas e Bolsonaro, há diferenças importantes em seus pensamentos e trajetórias. Autor da tese de doutorado Meu nome é Enéas!, bordão usado pelo cardiologista em suas propagandas eleitorais, o historiador e pesquisador da PUC do Rio Grande do Sul Odilon Caldeira Neto diz que os dois políticos se aproximam pelo discurso nacionalista e pela "tentativa de criar uma forma autoritária e conservadora de estruturar a nação brasileira." Ele aponta, porém, que Enéas discordava de Bolsonaro em relação à ditadura militar. Em entrevista ao programa Roda Viva, em 1994, o médico criticou o regime por asfixiar a imprensa e por "esquecer uma coisa fundamental: a formação do cidadão, o investimento no homem". No manifesto de fundação do Prona, de 1989, o partido diz que a ditadura "não foi um período de felicidade para o povo brasileiro". Já Bolsonaro "tenta se colocar como um herdeiro do regime militar", segundo o historiador. O deputado costuma dizer que os militares livraram o país do comunismo e deram mais segurança e liberdade aos brasileiros.